Terceira Atividade - Biblioteca Digital: conceituação e questionamentos emergentes
Postagem realizada em: 14/04/2008 às 08:29:48 - Última atualização em: 30/11/-0001 às 00:00:00
Autor: Leonardo da Silva de Assis
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
DEPARTAMENTO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO
Recursos Informacionais II
Profa. Dra. Brasilina Passarelli
Leonardo da Silva de Assis – Matutino – Nº USP 5646646
Terceira Atividade
Biblioteca Digital: conceituação e questionamentos emergentes
Após o efetivo barateamento dos recursos da informática, a partir dos anos 90, um conceito de biblioteca surge para dialogar com as novas formas de armazenamento das informações: a biblioteca digital. Passada a fase inicial de introdução desse conceito na atividade dos centros de informação, dentre o final de 1990 e início dos anos 2000, as bibliotecas atuais vivem um novo dilema quanto a reprodução dos materiais que não estão no formato digital, mas que precisam ser disponibilizados para acesso do público aos conhecimentos.
Os impactos causados pelas mídias digitais alteraram o ritmo consonante das atividades de trabalho em diversos setores da sociedade. Na biblioteca, observando-a como um organismo vivo inserido nesse contexto, as mídias digitais trouxeram novas formas de trabalho aos profissionais que têm a atribuição de mediar os recursos de informação à sociedade. Jennifer Rowley (p. 4, 2002), apresenta que a biblioteca digital pode ser encontrada na literatura com as seguintes denominações: bibliotecas sem paredes, bibliotecas em rede, biblioteca no microcomputador, biblioteca lógica, biblioteca virtual, centro nervoso de informações e centro de gerenciamento de informações. Antes de qualquer apreciação da nomenclatura apresentado por Jennifer Rowley, é necessário refletir que a literatura sobre o tema sofreu variações com o tempo, e que alguns nomes apresentados para biblioteca digital não podem ser aplicados mais ao conceito, devido o esclarecimento dos profissionais com as tecnologias de informação e comunicação. Um exemplo de desenvolvimento dos estudos na área, no qual ocorre uma distinção entre os tipos de biblioteca, pode ser aplicado ao conceito de biblioteca virtual. Não entraremos no tema da biblioteca virtual, pois sua conceituação necessita de outra oportunidade para construção de um corpus de estudo.
Dentre as denominações de biblioteca digital, uma essência básica caracteriza o conceito em relação aos demais tipos de biblioteca. Essa essência pode ser encontrada em autores como Ramiro Lafuente Lopez (p. XIX, 1999), Michael Lesk (p.1, 1997), Margarita Pérez Pulido (p, 81 2005), Lucy A. Tedd (p.19, 2001), Murilo Bastos Cunha (p.257-258, 1999), bem como em Jennifer Rowley (p. 3-4, 2002). O conceito de biblioteca digital pressupõe que as informações nela armazenadas, em formato textual, audiovisual ou mesmo numa confluência textoaudiovisual, estejam no formato digital. Portanto, os suportes como papel, magnéticos e até mesmo ópticos, utilizados como forma de armazenamento das informações, são substituídos pelo armazenamento em unidades de memória que são gravadas pelo sistema de códigos binários. Como reflexo dessa prática, não há uma materialização do documento no formato físico, como o livro ou revista, mas seu acesso ocorre por meio de uma interface, o computador.
A produção de documentos digitais em larga escala acarreta a criação de bibliotecas digitais pelo mundo. Livros eletrônicos, documentos, vídeos, animações artísticas, isto é, grande parte dos documentos produzidos pelo homem e suas atividades cotidianas, atualmente, já nascem em formato digital. Esse desdobramento na produção de conhecimento pela sociedade altera o aspecto de acervo e acesso, presente nas unidades de informações tradicionais, como por exemplo, a biblioteca. Encontramos exemplos de instituições que possuem grande parte de seu acervo em formato digital. Essa memória documental pode ser alocada em um servidor que não pertence à instituição, servindo tão somente de host (porta) para entrada de seus usuários. Os acervos digitais constituem gamas de documentos de forma mais rápida do que o processo histórico gerado pela imprensa no século XVII. A produção, e também a reprodução, de documentos ocorre de forma ativa e rápida. Torna-se necessário, principalmente ao profissional que trabalha com informação, pensar em soluções para se trabalhar dentro desse conceito. Como apresentado pelo professor Murilo Bastos Cunha (p.257-258, 1999), criam-se nas unidades de informação preocupações quanto: o acesso remoto à informação; a utilização simultânea de documentos; a possibilidade de acesso ao documento completo (não somente a referência); a utilização de diversos suportes de registro (texto, imagem ou som); e a problemática de agentes inteligentes para auxílio na recuperação da informação pelos receptores.
Muitas das questões apresentadas pelo professor Murilo Bastos Cunha foram, e estão sendo, trabalhadas pelas unidades de informação. No entanto, ainda existem outras questões, geradas pelo crescimento das bibliotecas digitais, que necessitam de melhores esclarecimentos, como, por exemplo, o problema da reprodução de materiais por completo pelos usuários. A reprodução do conteúdo de um documento no formato digital é facilitada por mecanismos capazes de extrair textos, imagens e sons dos documentos originais. Com o aumento na produção desses documentos, torna-se difícil o controle das cópias e reprodução dos documentos digitais por algum órgão regulador. No âmbito jurídico, essa questão envolve a lei no. 9.610/98, referente ao Direito Autoral. Essa lei, numa interpretação sucinta, divide o direito do autor em direito moral e direito exclusivo. O direito moral refere-se à prerrogativa da personalidade intelectual do autor na criação da obra. Já o direito exclusivo, define o autor como o detentor do direito de usufruir da utilização das obras, bem como o poder de conceder autorização para sua reprodução. As unidades de informação ainda não descobriram formas para se trabalhar com os documentos que precisam ser reproduzidos para o formato digital, caindo no problema do direito autoral, pois sua reprodução para o formato digital já caracteriza uma cópia, o que se torna ilegal se a instituição não tiver autorização por parte do autor.
Outro problema encontrado na reprodução de obras para o formato digital está na questão da reinterpretação do conteúdo dos documentos. Esse problema afeta, principalmente, documentos como imagens e vídeos, já que foram criados, primeiramente, de acordo com as interperes dos suportes de armazenamento disponíveis na época de sua criação, como por exemplo, o papel e a fita magnética. A transferência de conteúdos para formatos digitais pode alterar cor, tamanho, som, ou seja, afetam profundamente a criação artística de um autor quanto ao direito moral. Algumas iniciativas vêm sendo estudadas pelas unidades de informação para reprodução dos documentos no formato digital. Primeiro, estabelecer ao autor que a reprodução da obra se dará para fins acadêmicos e não comerciais. Segundo, inserção de dispositivos digitais aos documentos que impedem a sua reprodução fora do ambiente da unidade de informação, bem como inserção de marcações que informam a origem do material.
Assim, o crescimento dos documentos digitais tem afetado diversos setores da sociedade. A biblioteca, como agente vivo nesse contexto, passa por reflexões quanto ao armazenamento e reprodução dos documentos digitais presentes em seu acervo. A reprodução de tais documentos afeta questões de ordem jurídica quanto ao direito autoral. Algumas soluções estão sendo desenvolvidas pelas unidades de informação para tratar desse assunto. Cabe a nós, futuros profissionais da informação, estarmos atentos a todos esses assuntos que afetam nosso ambiente de trabalho.
Referências:
CUNHA, Murilo Bastos. Desafios na construção de uma biblioteca digital. Ciência da Informação. Brasília, v. 28, n.3, set./dez., 1999.
ROWLEY, Jennifer. A Biblioteca eletrônica. Brasília: Briquet de Lemos, 2002.
LESK, Michael. Practical digital libraries: books, bytes, and bucks. San Francisco: Morgan Kaufmann Publishers, 1997.
LOPEZ, Ramiro Lafuente. Biblioteca Digital y Ordem Documental. México: Universidade Nacional Autónoma de México, 1999.
PÉREZ PULIDO, Margarita. Teoría y nuevos escenarios de la biblioteconomía. Buenos Aires: Alfagrama, 2005.
TEDD, Lucy A. Digital libraries principles and practice in a global environment. München: K. G. Saur, 2001.