Segunda Atividade: Um devoto do conhecimento
Postagem realizada em: 21/03/2008 às 00:12:37 - Última atualização em: 30/11/-0001 às 00:00:00
Autor: Leonardo da Silva de Assis
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
DEPARTAMENTO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO
Recursos Informacionais II
Profa. Dra. Brasilina Passarelli
Leonardo da Silva de Assis – Matutino – Nº USP 5646646
ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
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Recursos Informacionais II
Profa. Dra. Brasilina Passarelli
Leonardo da Silva de Assis – Matutino – Nº USP 5646646
Segunda Atividade
Um devoto do conhecimento
“A verdade foi o único objetivo de sua mente, pois que nada o contentava jamais senão o conhecimento.”
Gilberte Périer
“Papai, papai, me explique os efeitos da natureza.” – dizia a criança entusiasmada na ânsia de aprender os significados das coisas. Quando Étienne não encontrava respostas para as dúvidas de seu filho, logo o menino tratava de criar seus próprios significados para suas indagações. A história de uma criança com tanta vontade em aprender merece atenção especial para nossos estudos. Além disso, dessa mente extraordinária nasce o conceito de um dos inventos mais importantes na vida contemporânea, o computador. Em 19 de junho de 1623, nascia em Clermont-Ferrand, na França, um menino que teve um modo de vida muito particular, estamos falando de Blaise Pascal.
Em relatos e cartas escritas por sua família, Blaise Pascal, desde sua infância, era um menino com um desenvolvimento intelectual fora do comum. Seu pai, Étienne Pascal, observando a inteligência desenvolvida do garoto, tratou ele mesmo de passar toda educação escolar para seu filho, tornando-se um pedagogo particular. Sendo um grande conhecedor da matemática, e contador por profissão, Étienne Pascal, tinha por objetivo manter seu filho sempre acima dos estudos e tarefas que as crianças aprendiam na infância. Tudo isso com o apoio e a vontade apresentada por seu filho em aprender novos conhecimentos.
A partir de observações simples dos movimentos da natureza e dos objetos, Étienne explicava a Blaise os conceitos escolares fundamentais. Nessa prática de ensino, pai e filho, uma peculiaridade foi observada. Étienne Pascal ensinou Latin a Blaise apenas com 12 anos de idade – idioma que as crianças aprendiam logo no início da infância. Antes, Étienne explicou a Blaise o modo geral como constituíam as línguas e como era possível a comunicação entre os países, mostrando o desenvolvimento da escrita - a importância do alfabeto grego. A apresentação desses conceitos foram fundamentais no aprendizado de Blaise, pois sabia o motivo do uso das regras gramaticais, sendo fácil sua aplicação em qualquer momento. Como preocupação dos estudos, seu pai primeiro ensinou a Blaise as línguas. Entretanto, seu gênio era incapaz de se confinar apenas numa área do conhecimento. Perguntava incessantemente a seu pai o que era a matemática e quando ele iria receber esse ensinamento. Étienne apenas explicou a Pascal que com a matemática era possível criar figuras infalivelmente certas. Com esse conceito em mente, Pascal descobriu os 32 princípios matemáticos de Euclides, sem auxílio de um mestre ou professor, apenas fazendo desenhos e criando formas geométricas em seus estudos.[1] Blaise Pascal era um menino muito observador, desenvolveu um estudo ao apreciar o som do atrito entre uma peça de metal e uma peça de porcelana. Em Paris, na adolescência, Pascal freqüentava círculos de intelectuais a fim de apresentar seus trabalhos e discutir os projetos de outros pensadores.
Passado alguns anos, com sua família se mudando de Paris para Rouen (Ruão), tendo como plano de fundo histórico o sistema de governo absolutista, Luis XIII, e a guerra dos 30 anos entre França e Espanha, Blaise Pascal substitui Florin Perier no serviço de administração fiscal do parlamento, trabalhando juntamente com seu pai. Observando em Étienne um cansaço físico e mental nas atividades que desenvolvia como contador de impostos, bem como entediado por não ter a mesma vida intelectual que levava em Paris, procurou criar uma atividade mental de acordo com seus conhecimentos, teve a idéia de automatizar o cálculo dos impostos. Com dezoito anos de idade, em 1639, o jovem Pascal fez esboços e testes do que viria a ser a sua máquina de calcular, até então chamada de aritmeticha. Jacques Attali (2003) nos apresenta como funcionava a invenção de Blaise:
Em alguns meses, Blaise monta, "com caneta e compasso", um esquema teórico no qual cada roda ou vareta de uma ordem, ao girar dez algarismos, provoca o movimento de um único algarismo da roda ou vareta seguinte. Foi encontrado o princípio da máquina de calcular, de certo modo, do computador. (ATTALI, p. 66, 2003)

Figura 1 – A Pascalina
(Fonte: http://www.compuclasico.com/articulos.php?Enlace=evolucion/evolucion01)
A máquina de calcular de pascal foi apelidada de “a Pascalina”. Como acontece, na maioria das vezes, com todo invento visionário, muitos intelectuais não acreditaram na importância da máquina de Pascal para a automatização de cálculos, sendo seu projeto patenteado somente em 1649.[2] Mesmo com o descrédito da sociedade naquele momento, Pascal, agora com dezenove anos, aperfeiçoou seu projeto e continuou em suas pesquisas. O próprio Pascal, apud Jacques Attali (2003), conta-nos como foi o processo de criação e desenvolvimento de sua máquina de calcular:
"Comecei a executar meu projeto com uma máquina bem diferente desta tanto em material quanto em forma, a qual (se bem que em condições de satisfazer a muitos) não me satisfez inteiramente; com isso, corrigindo-a aos poucos, acabei fazendo, sem perceber, uma segunda que continha ainda inconvenientes que não aceitei e não procurei remediar; assim, fiz uma terceira, que funciona com molas e é de construção bem simples." (ATTALI, p. 67, 2003)
Com o crescimento da burguesia - mercantilismo -, a máquina de calcular inventada por Pascal obteve seu crédito e foi desenvolvida por outros intelectuais, aumentando sua capacidade de cálculos. A vida intelectual de Pascal não terminou apenas com o invento da pascalina, continuou com suas publicações e teorias sobre temas diversos, como por exemplo, o estudo do vácuo (1648) e do equilíbrio dos licores (1648).
Devido a um acidente que sofrera em 1646, Blaise Pascal é tratado por dois homens da religião jansenista, tendo uma aproximação maior com a doutrina cristã.[3] Com 23 anos de idade resolve romper com toda vida de estudos nas ciências, se dedicando apenas ao estudo da moral e do espírito. Sua irmã e biógrafa, Gilberte Périer (1961), conta-nos como foi esse momento na vida de Blaise Pascal:
[Blaise] Aplica toda a força de sua mente no caminho e na prática da perfeição moral cristã, a qual consagrou todo o talento que Deus lhe deu, nada mais fazendo todo o resto da sua vida do que meditar dia e noite sobre a lei divina. (PASCAL, p.20, 1961).
Pascal passa a viver uma vida simples e afastada de todas as glórias que antes adquirira com seus estudos e inventos. Vive recluso de amigos e parentes, apenas a escrever o que viria a ser o seu último livro, dentro dos preceitos da religião cristã - Pensamentos.[4]
Sofrendo graves problemas de saúde, em 29 de agosto de 1662, com 39 anos, falece durante a madrugada. De acordo com relatos de sua irmã, horas antes de falecer, Pascal pediu para comungar o corpo de cristo. Envolto a grandes convulsões que sofria, com chegada do padre cessam momentaneamente seus problemas de saúde. Com isso, faz a comunhão e recebe e extrema-unção. Gilberte Périer conta-nos que ele faleceu poucos minutos depois de ser atendido seu pedido.
ATTALI, Jacques. Blaise Pascal ou o gênio francês? Bauru: EDUSC, 2003.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. 2 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961.
PASCAL, Blaise. Pensamento vivo de Pascal. São Paulo: Martins, 1975.
[1] 32º principio de Euclides: a soma dos ângulos [internos] de um triângulo é igual a dois ângulos retos [180 º].
[2] Blaise Pascal, apud Jacques Attali (2003): “As invenções que não são conhecidas sempre têm mais censores que aceitadores: quem as descobriu é criticado porque não se tem perfeita compreensão delas.”
[3] Jansenismo: doutrina do teólogo holandês Cornelis Jansen, séc. XVII. Radicalizando o pensamento de Santo Agostinho no tocante à relação entre a graça divina e a liberdade humana, o jansenismo fazia depender a salvação do homem do juízo prévio e insondável do Criador, e não das ‘boas obras’ ou da vontade da criatura.
[4] A obra Pensamentos não foi publicada em vida pelo autor.