Aula 13/06 - Tecnologia 5G: alguns dados geopolíticos
Postagem realizada em: 12/07/2022 às 23:25:05 - Última atualização em: 12/07/2022 às 23:25:58
Autor: Olívia Campos
A aula do dia 13 de junho foi dedicada à última apresentação do ciclo de seminários, cujo tema foi “IoT, Big Data, IA e Ciência de Dados”. Em relação ao 5G, o grupo chegou a abordar a questão geopolítica que o envolve, aspecto que nos interessa aprofundar, inclusive nos valendo de uma das referências utilizadas pelos colegas. Tendo realizado algumas leituras, gostaríamos de compartilhar alguns dados da trama geopolítica internacional em torno da implantação desta tecnlogia.
- O que é o 5G?
É a quinta geração de internet móvel, que, por sua maior velocidade, menor latência na transmissão de dados e maior estabilidade das conexões permite a conectividade entre máquinas via internet, a Internet das Coisas (Internet of Things, IoT).
O 5G amplia exponencialmente a capacidade de conexões em uma região, especialistas estimam em mais de um milhão de aparelhos conectados simultaneamente por quilômetro quadrado, contra quatro mil objetos conectados permitidos no padrão 4G.
- O que o 5G permite?
Com sua proposta de tempo de resposta praticamente instantâneo e conexões de internet mais estáveis em regiões maiores, o 5G viabiliza não só cirurgias à distância, carros autônomos e cidades completamente conectadas e monitoradas, como também um controle ainda maior e mais rápido de transações virtuais a partir de objetos inteligentes conectados.
- Quem possui a tecnologia 5G?
O desenvolvimento da tecnologia para a implementação do 5G teve início em 2008 com pesquisas da coreana Samsung. A chinesa Huawei entrou atrasada nessa corrida em 2013, mas como já era uma grande fornecedora de equipamentos e sistemas de telecomunicações não demorou a despontar como uma grande competidora. Hoje, cinco empresas vendem sistemas 5G para as operadoras de telecomunicações: Huawei, ZTE (estatal também chinesa), Nokia (finlandesa), Samsung (coreana), e Ericsson (sueca).
- Qual a disputa geopolítica que envolve o 5G?
A disputa geopolítica estabeleceu-se entre as duas nações que lideram a implementação do 5G e colocou a chinesa Huawei como um ator central. Os dois países com mais cidades rodando redes 5G, em 2021, eram China (341) e Estados Unidos (279). A Coreia do Sul e o Reino Unido surgiam em terceiro e quarto lugar, com 85 e 54 cidades, respectivamente.
Atores da disputa geopolítica
- Huawei
Fundada por Ren Zhengfei, propriedade de seus empregados, a empresa é caracterizada pelo atípico sistema de gestão rotativa, pelo culto aos valores maoístas e pelo apego à ideia de inovação nacional para romper a dependência da China em relação às empresas estrangeiras “imperialistas”. Até início da década de 1990 não passava de uma pequena vendedora de comutadores telefônicos e, desde 2009, está entre os principais atores envolvidos no desenvolvimento da tecnologia 5G, tanto no setor industrial quanto em vários organismos internacionais de padronização.
Parte do notável sucesso alcançado explica-se pelo compromisso da empresa com a área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), à qual dedica mais de 10% de seus lucros anuais, o equivalente a mais de US$ 15 bilhões de dólares em 2019, à frente da Apple e da Microsoft.
- Estados Unidos
A ofensiva dos Estados Unidos contra a alta tecnologia chinesa atinge um amplo leque de empresas, da ZTE à WeChat, passando pelo TikTok e muitas outras menos conhecidas. A Huawei, porém, é indiscutivelmente o alvo principal, ela representa a quintessência de uma China sem escrúpulos, cujos crimes os Estados Unidos não se cansam de condenar e punir.
Os Estados Unidos sempre foram uma área de alto risco para a Huawei, muito antes da presidência de Trump e mesmo da administração de Barack Obama. Desde o início, o mote da acusação é de que a Huawei trabalha de mãos dadas com o Exército chinês.
Apesar de motivo de preocupação, a aceleração da “fusão civil-militar” chinesa - um esforço para tornar mais fluidas as relações entre o setor de tecnologia e o Exército - é inspirada no exemplo dos próprios Estados Unidos. Entre outras ameaças, a Huawei estaria equipando seus produtos com backdoors, que ajudariam o regime chinês a expandir suas atividades de vigilância.
Obviamente, o discurso é de que o estímulo ao boicote e à criminalização não é por lucro e poder, mas, em primeiro lugar, uma questão de segurança nacional.
Em 2010, com o codinome Operação Shotgiant, a NSA invadiu os servidores da Huawei com dois objetivos: encontrar vestígios das possíveis ligações da empresa com o Exército chinês – nenhum documento vazou para a mídia – e identificar falhas de segurança em seus equipamentos, o que permitiria aos serviços de inteligência dos Estados Unidos espionar alguns de seus Estados clientes, como Irã e Paquistão.
No final de 2018, o governo dos Estados Unidos ordenou a prisão da filha de Zhengfei, Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, durante uma escala no Canadá.
É razoável perguntar por que a campanha dos Estados Unidos contra a Huawei só se intensificou recentemente. Para Trump, a Huawei era uma moeda de troca nas negociações comerciais e um slogan de campanha.
A situação não mudou com o governo Joe Biden, foi reiterado que o conglomerado chinês é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos e seus aliados, por ser um fornecedor de equipamentos de telecomunicações não confiáveis.
Alguns observadores estabelecem um paralelo entre a atual campanha anti-chinesa e os anos1980, quando Washington tentava domar os gigantes industriais japoneses.
- China
As duas expressões mais faladas na China hoje são “desestadunização” – da cadeia de suprimentos e da infraestrutura tecnológica – e “economia de dupla circulação” – uma nova direção política que consiste em articular a reorientação do mercado doméstico e o desenvolvimento de tecnologias de ponta adequadas à exportação.
Com esta reorientação, a China começou a pesar mais nos organismos internacionais de órgãos de padronização, como a Comissão Eletrotécnica Internacional, a União Internacional de Telecomunicações e a Organização Internacional de Padronização (ISO), inclusive com chineses nos cargos de direção.
Logo após o ainda presidente Trump anunciar novas restrições à Huawei e seus fornecedores, Xi Jinping anunciou um plano de US$ 1,4 trilhão para garantir a liderança chinesa em várias tecnologias-chave até 2025.
Em reação ao programa norte-americano Clean Network - cujo objetivo é limpar a internet da “influência nefasta” do Partido Comunista Chinês - a China acaba de anunciar o lançamento de sua própria rede internacional, a Global Data Security Initiative, que visa combater a vigilância e a espionagem dos Estados Unidos.
- E a Europa?
A Europa é casa de duas companhias bem estabelecidas, a Nokia e a Ericsson. Todavia, a União Europeia não conseguiu definir uma política comum a respeito do 5G, principalmente porque a questão foi tratada em termos de segurança nacional – como nos EUA - área na qual os Estados membros são soberanos.
- Reino Unido
Foi no Reino Unido que a Huawei inaugurou, em 2010, em parceria com os serviços de inteligência britânicos, o Centro de Avaliação de Segurança Cibernética Huawei, responsável por analisar e corrigir falhas de segurança identificadas em suas redes. O país é um ponto central na estratégia europeia do grupo chinês, cuja sede regional está instalada em Londres.
Todavia, o Reino Unido também é o principal aliado dos EUA e deve comprar parte dos equipamentos para 5G da Huawei, mas apenas partes menos relevantes, como os equipamentos da rede de acesso (antenas e rádio 5G, entre outras etc). O chamado core, o centro de controle da rede, não será comprado da China.
- E o Brasil?
Apesar do imenso mercado consumidor, o Brasil não detém e não desenvolve tecnologia 5G.
É importante lembrar que, o CPqD, que era um centro de pesquisas público para o desenvolvimento de tecnologia nacional em telecomunicações, se transformou em uma fundação de direito privado das empresas de telecomunicação instaladas no Brasil, e desde então não há protagonismo na pesquisa para a evolução das comunicações do país. Em 2021, concluiu-se o processo de compra da parte móvel da ainda brasileira Oi pelas concorrentes, a italiana TIM, a mexicana Claro e a Vivo, que pertence à Telefónica da Espanha.
A saída que o Brasil encontrou no contexto da batalha geopolítica do 5G é similar à do Reino Unido. Esta rede foi inserida no edital de forma a pacificar a questão com a Huawei, que poderá fornecer soluções para toda a rede com exceção desta unidade do Executivo federal.
- Aspecto econômico: as patentes
No plano econômico, para além da infraestrutura material exigida pelo 5G, é preciso pensar na malha de direitos de propriedade intelectual que essa tecnologia implica. Cada rede ou aparelho que pretenda operá-lo precisa respeitar suas especificações técnicas, o que passa necessariamente pela utilização de tecnologias patenteadas. Um smartphone moderno com Wi-Fi, touchscreen, processador etc. está protegido no mínimo por 250 mil patentes (esse número, de 2015, deve ser ainda maior hoje). Segundo uma estimativa de 2013, 130 mil dessas patentes seriam “patentes essenciais”), como são classificadas aquelas que permitem a conformidade com uma norma técnica como o 5G.
A Huawei está agora entre os maiores detentores de patentes essenciais relacionadas ao 5G, e patentes significam royalties.
- Xeque-mate
No limite, quem conseguir fornecer os equipamentos e softwares para a conexão do 5G poderá monopolizar de alguma forma o controle dessa infraestrutura. Quem dominar o 5G no mundo terá um grande poder econômico e geopolítico e essa é a razão de todas as disputas.
Referências
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL. A batalha geopolítica do 5G. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-batalha-geopolitica-do-5g/. Acesso em: 05 jul. 2022.
MAURÍCIO, P.; ALMEIDA, R. Q.; SOARES JR., C. O Brasil na periferia da disputa geopolítica sobre o 5g. Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura, v. 23, p. 124-138, 2021. Disponível em: http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/163117. Acesso em: 05 jul. 2022.