Seminário III - Reflexão sobre a literatura cinzenta
Postagem realizada em: 02/01/2022 às 21:31:03 - Última atualização em: 03/01/2022 às 09:21:43
Autor: Filipe Pereira

De modo geral, podemos dizer que a literatura cinzenta, pode ser definida como documentos que não são editados, publicados e comercializados. Também, sendo difíceis de encontrar em canais tradicionais de distribuição, com fraco controle bibliográfico, produzidas em número reduzido de cópias. Contém informação e conhecimento altamente atualizado e detalhado, destinado para um público mais reduzido e não sendo determinado apenas por interesses comerciais (BOTELHO; DE OLIVEIRA, 2017, p. 511).
Esses documentos são produzidos em todos níveis governamentais, acadêmicos, dos negócios e da indústria; e circulam normalmente na administração pública e privada, em congressos, reuniões e centros de pesquisa. O conceito de literatura não-comercial traz consigo essa ideia de uma névoa que oculta a sua localização e obtenção, o termo deriva da expressão original inglesa gray ou grey literature, que foi cunhado no ano de 1978 no Seminário de York.
Há a noção de literatura branca que se contrapõe a ideia da literatura subterrânea, que nos auxilia no quesito de representar uma definição negativa:
“Corresponde a publicações convencionais e comerciais disponíveis no mercado livreiro, com média ou grande tiragem, ampla difusão, de fácil controle bibliográfico, recebendo numeração internacional e objeto de depósito legal, podendo ser adquiridas pelos mecanismos usuais de compra. (BOTELHO; DE OLIVEIRA, 2017, p. 511).”
Como exemplos de recursos informacionais para essa categoria de obras temos teses e dissertações, obras de eventos, anais de conferência, relatórios científico-técnicos, pré-publicações, especificações técnicas e normas - ABNT, por exemplo -, traduções, bibliografias, documentação técnica e comercial, documentos oficiais, patentes, boletins, preprint e e-print, páginas da web - Wikipédia, por exemplo -, CD’s e DVD’s, entre outros.
O tema requer revisão, dado que as referências convencionais sobre o assunto são datadas de antes de 2005 e desde 2006 temos a legislação da Capes:
Portaria Capes nº 13, DE 15 DE FEVEREIRO DE 2006
Institui a divulgação digital das teses e dissertações produzidas pelos programas de doutorado e mestrado reconhecidos.
E também bases de dados de teses e dissertações como a da IBICT que desenvolveu e coordena a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e inclusive indicado pelo professor Marcelo Krokoscz a Networked Digital Library of Theses and Dissertations (NDLTD). Essas recentes mudanças advindas da tecnologia nos colocam, da Biblioteconomia e Ciência da Informação, na situação de repensar a definição e conceitos sobre o tema da literatura denominada, acerca de mais de 40 anos atrás, como cinzenta; necessitando atualização conceitual e teórica, sendo um ótimo tema com amplo espaço de exploração para pesquisa e teses de láurea.
Boa parte da literatura oculta é desconsiderada por vários fatores, ela é vista como sendo menos confiável e “oficial” do que as publicações de periódicos que tem peer review - revisado por pares. No entanto, ainda são meios de publicação em que há legitimidade, sendo frequentemente, usados para divulgar as primeiras descobertas, antes da conclusão de um estudo.
Pela época pandêmica que enfretamos, os preprints ou e-prints tiveram grande serventia no sentido de circular conhecimento científico de forma mais ágil do que depender de todas etapas até publicação oficial em uma revista científica. A definição de preprint, que pessoalmente considerei muito interessante e desconhecia, é um manuscrito de um artigo que ainda não foi publicado oficialmente, havendo também sua versão eletrônica/digital que são os e-prints.
Dessa forma concluo que há formas de superar os desafios impostos pela natureza do material informacional aqui analisado, por exemplo, avaliando a sua qualidade com critérios específicos, mantendo boas práticas de gestão, indexando e catalogando em bases de dados e repositórios. Sendo um conteúdo muito rico! ainda que alvo de desprestígio e extenso, o que acaba por gerar distanciamento, restando coragem para nós profissionais da informação ao encarar essa imensidão de informações que nos aguarda contida nesses documentos cinzentos que, como disse a bibliotecária Elisabeth Dudziak, nada tem a ver com a cor.
Referências:
BOTELHO, R. G.; DE OLIVEIRA, C. da C. Literaturas branca e cinzenta: uma revisão conceitual. Ciência da Informação, [S. l.], v. 44, n. 3, 2017. DOI: 10.18225/ci.inf.v44i3.1804. Disponível em: http://revista.ibict.br/ciinf/article/view/1804. Acesso em: 2 jan. 2022.
DUDZIAK, Elisabeth. O que é literatura cinzenta? AGUIA Blog, 16 ago. 2021. Disponível em: https://www.aguia.usp.br/noticias/o-que-e-literatura-cinzenta/ Acesso em: 02 jan. 2022.