Resenhas - atividade externa
Postagem realizada em: 27/09/2021 às 13:30:03 - Última atualização em: 27/09/2021 às 13:38:06
Autor: Nicole Bonassi de Oliveira
Atividade: resenha do artigo Do Mundaneum à Web Semântica
Título: déjà vu et inspirations
Se Paul Otlet estivesse vivo hoje, na sociedade globalmente conectada pela internet, certamente pensaria estar vivendo um déjà vu, pois grande parte de suas ideias proferidas há séculos atrás podem ser visualizadas atualmente (PASSARELLI, 2008), graças ao intercâmbio das redes. Mas como essa consolidação temporal se formou? Embora boa parte do acervo catalogado por Otlet tenha se perdido com o passar dos anos, bem como enfrentou o extermínio por falta de tratamento(1), as suas ideias foram conservadas e compartilhadas através de estudos, da mesma forma em que precedeu uma época que gerou quem se interessasse pela criação de conexões igualitárias entre os sujeitos.
A época em questão se refere ao século XX, momento de imensas transformações socioeconômicas e culturais, que culminaram, dentre outras inovações, na criação do hipertexto, da internet e da world wide web (WWW), por Theodore Nelson e Tim Berners-Lee, respectivamente (PASSARELLI, 2008); ferramentas digitais essas que moldaram as conexões dos sujeitos nas décadas seguintes e direcionam, até hoje, as relações culturais. Assim, no século XXI, os ideais cooperativos levantados pelos estudiosos das tecnologias, incentivados também por movimentos da contracultura ainda no século passado (PASSARELLI, 2008), foram em parte alcançados, pois a própria web ganhou três designações diferentes, cuja a terceira -- a web 3.0 --, carrega consigo elementos básicos que podem ser resolvidos com as características da Documentação proposta por Otlet, como a indexação para promover a produção das tags.
Dessa maneira, Tim Berners-Lee et al. (1992, p. 57, tradução nossa)(2) reafirma o que Otlet já havia previsto, pois destaca que:
O projeto Archie (Emtage & Deutsch, 1992) fornece um índice para os
arquivos da Internet e é um excelente exemplo de serviço que esperamos
disponibilizar na web. Podemos imaginar essa indexação sendo estendida
para cobrir outras formas de dados.
A W3 fornece uma infraestrutura básica para informações e acesso. Todos os
tipos de indexação, pesquisa, filtragem e ferramentas de análise podem ser
construídas de forma útil usando a W3 genérica mecanismo de acesso, e
assim ser aplicado a todos os vários domínios de dados. Seus resultados
poderiam então ser disponibilizados na web. Muitos projetos de pesquisa
possíveis em hipertexto são possibilitados pela existência de uma grande
base de informações interligadas.
Tal ideia, semelhante ao Mundaneum de Otlet, foi concretizada com o avanço da web semântica, já presente nos usos tecnológicos dos anos 2010. Igualmente, outras ferramentas online foram desenvolvidas a partir do aprimoramento da internet e dos hiperlinks, sem que a ideia geral de oferecer informação a todos os públicos fosse posta de lado. Como exemplo tem-se a Wikipédia, “[...] desenvolvida com um tipo de software chamado ‘wiki’ - um termo originalmente usado para WikiWikiWeb derivado do havaiano wiki wiki que significa rápido” (PASSARELLI, 2008, p. 8, grifo da autora).
Isto é, a rapidez do compartilhamento das informações seguras -- impulsionadas, mais tarde, também pela inteligência artificial -- era tido como prioridade desde o início da formação da rede digital, porém, com as atuais restrições impostas pelo copyright, que visam garantir o reconhecimento dos autores(3), entram em debate até que ponto as informações podem ser alteradas, emprestadas e citadas. O filósofo Ted Nelson, por exemplo, defende a re-colonização do ciberespaço, sugerindo uma licença em transcopyright, que consiste no cruzamento de informações com links de acesso aos originais (PASSARELLI, 2008).
Portanto, a permutação que vem ocorrendo na disponibilização da informação ao longo dos anos expressa coerências e inspirações, dado que os processos de criação daworld wide web (WWW), do hiperlink, da internet em si e, hoje, das inteligências artificiais, são a condensação de estudos impulsionados por ícones históricos, como Paul Otlet e o seu ideal de reunir em só local todo o conhecimento do mundo. Apesar de não ter sido realizado ainda, Otlet se orgulharia da internet e suas possibilidades.
(1) Para saber mais, acesse: https://bit.ly/39p0YQG. Acesso em: 20 set. 2021.
(2) Do original: The Archie project (Emtage & Deutsch, 1992) provides an index into the Internet archives and is an excellent example of a service that we hope to make available on the web. We can imagine such indexing being extended to cover other forms of data. W3 provides a basic infrastructure for information access. All kinds of indexing, searching, filtering and analysis tools could usefully be built using the generic W3 access mechanism, and so be applied to all the various domains of data. Their results could then be made available on the web. Many possible research projects in hypertext are made possible by the existence of a very large linked information base (BERNERS-LEE et al., 1992, p. 57).
(3) Para saber mais, acesse: https://bit.ly/3u3zEAP. Acesso em: 20 set. 2021.
Referências
BERNERS-LEE, Tim et al. World Wide Web: the information universe. Internet Research, 1992. Disponível em: https://bit.ly/3CsuH7G. Acesso em: 20 set. 2021.
PASSARELLI, Brasilina. Do Mundaneum à Web Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação. DataGramaZero, v. 9, n. 5, 2008. Disponível em: https://bit.ly/3zuKbGe. Acesso em: 20 set. 2021.
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Atividade: resenha do artigo A escola do futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil.
Título: a construção da cultura que constrói
Fruto da realização de pesquisas universitárias, o NAP Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo (NAP EF/USP), foi criado em 1989, atrelado então à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, fomentando os estudos direcionados às novas tecnologias que surgiam na época. A extensão das pesquisas permitiram não só novas reflexões acerca de uma temática inédita para todos os setores sociais -- desde as corporações privadas até o dia a dia de um agricultor --, mas também a quebra de paradigmas educacionais e estruturais que dizem respeito ao acesso à informação.
Neste contexto, Junqueira e Passarelli (2011) abordam o desenvolvimento da cibercultura no Brasil, iniciado nas últimas décadas do século passado, advindo das pesquisas realizadas nos Estados Unidos. A criação de um novo sentido para o termo literacia também é foco de discussão ao debater-se sobre a inclusão digital, representando que novas terminologias são criadas para unir sujeitos diversos e em transformação.
Para tanto, foi ainda na década de 1990 que a globalização virtual, isto é, a internet, tornou-se acessível a alguns públicos brasileiros, como aos acadêmicos e comerciantes, atingindo, mais tarde, os domicílios do país (JUNQUEIRA; PASSARELLI, 2011). Paralelamente, a disseminação das redes virtuais foi incrementada com outras pesquisas que estavam em andamento, como a world wide web (WWW), que “[...] enquanto espaço interativo aberto e colaborativo, colocou-se, desde a sua origem, como ambiente prenhe de novas oportunidades para a permanente produção de conhecimento [...]” (JUNQUEIRA; PASSARELLI, 2011, p. 63).
Certamente, a construção de uma ambientação “prenhe de conhecimento” foi fundamentada por grandes nomes, como Manuel Castells e Pierre Lévy, estudiosos indispensáveis para a compreensão dos contextos virtuais, haja vista que ambos moldam os princípios da era da informação. Lévy (2010, p. 15), por exemplo, destaca que “[...] a cibercultura expressa o surgimento de um novo universal, diferente das formas culturais que vieram antes dele no sentido de que ele se constrói sobre a indeterminação de um sentido global qualquer [...] [diferente] das mutações anteriores da comunicação”. Ou seja, aspectos descendentes da era da informação, como as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) ou as literacias digitais, se diferem inteiramente das práticas culturais aplicadas anteriormente, em contextos não informacionais; mas, ao mesmo tempo, carregam consigo características provenientes do meio analógico, afinal derivam-se deste.
No Brasil, as literacias digitais, por exemplo, são um conceito formulado a partir do estudo e junção de outros termos, como literacia, termo que provém do termo em inglês literacy, cuja tradução direta não existe (JUNQUEIRA; PASSARELLI; 2011). Logo, para definir a literacia, o termo letramento costuma ser o mais utilizado, pois, apesar de não abarcar todos os aspectos tecnológicos, refere-se “[...] ao processo de alfabetização, ou seja, ao ensino e aprendizado das letras e à prática da leitura e da escrita. Vincula-se, assim, à superação do analfabetismo e à acentuação do caráter grafocêntrico da sociedade” (JUNQUEIRA; PASSARELLI; 2011, p. 65).
Dessa maneira, as tecnologias, através da formulação de novos termos e atingindo um público cada vez maior, consolida-se como uma nova expressão cultural, uma vez que implicam em sua composição a integração de uma comunidade diversificada e proativa, capaz de solidificar uma nova espécie de ética nos ambientes virtuais. No entanto, à medida em que as relações avançam, o uso do bom senso e do respeito devem ser preservados, aplicando-se a ética virtual, ou seja, o respeito perante as culturas que se encontram em um só local.
Outrossim, um bom convívio nas plataformas digitais, como o Facebook, um ícone da cibercultura no Brasil e no mundo (PEREIRA, 2015), incentiva os bons relacionamentos e o compartilhamento de informações, levando para mais pessoas a cultura digital, dado que “para a interação em rede, os indivíduos têm que ser capazes de comunicar-se nas e pelas novas linguagens, reconhecendo as práticas sociais e os gêneros textuais envolvidos nas interfaces multimidiáticas” (JUNQUEIRA; PASSARELLI; 2011, p. 67).
Por conseguinte, torna-se evidente a contribuição dos estudos produzidos pela NAP EF/USP acerca da cibercultura no Brasil, explicitando que a integração de uma nova cultura que envolva novos sujeitos é capaz de criar caminhos mais enriquecedores, bem como novos conceitos com potenciais transformadores.
Referências
JUNQUEIRA, Antonio Helio; PASSARELLI, Brasilina. A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultur@ no Brasil: interfaces, impactos, reflexões. Logos, v. 18, n. 1, 2011. Disponível em: https://bit.ly/3nMR6sl. Acesso em: 19 set. 2021.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Editora 34, 2010. Disponível em: https://bit.ly/39jvxXO. Acesso em: 19 set. 2021.
PEREIRA, E. B. Do letramento digital ao acadêmico: dinâmica interacional e práticas de escrita no Facebook. Linha D’Água, [S. l.], v. 28, n. 1, p. 67-86, 2015. Disponível em: https://bit.ly/3nPkrSR. Acesso em: 20 set. 2021.