Conceitos e referências para a discussão da web semântica e cibercultura
Postagem realizada em: 27/09/2021 às 12:30:44 - Última atualização em: 27/09/2021 às 22:51:48
Autor: Olívia Campos
PASSARELLI, B. Do mundaneum à web semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação. DataGramaZero, v. 9, n. 5, 2008. Disponível em: http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/6370. Acesso em: 19 set. 2021.
Conforme as orientações recebidas, a proposta de resenha concentrar-se-á fundamentalmente na identificação de conceitos que interessam às discussões da disciplina, o que será feito a partir dos tópicos nos quais se estruram o texto.
O tópico inicial - Mundaneum: a Internet em fichas de papel - resgata a importância das iniciativas do belga Paul Otlet (1868-1944), que se dedicou à organização, e disseminação, física do conhecimento, e, enquanto intelectual visionário, pode-se dizer, previu o uso do computador associado à internet e cunhou os termos web of knowledge, link e repository of knowledge. O Mundaneum, mais especificamente o Repertório Bibliográfico Universal (RBU), foram reconhecidos como “internet de papel”, precurssor, portanto, da internet contemporânea. Aproveitamos para, através de consulta ao website do atual Museu Mudaneum[1], atualizar. O Mundaneum é inaugurado em 1920 – e não em 1910; até 1930 foram redigidas aproximadamente 16 milhões de fichas; em 1984 o acervo é cedido à Comunidade francesa da Bélgica e se encontra atualmente sob custódia do Museu Mundaneum na cidade de Mons na Bélgica e não na França.
Uma vez apresentado o pioneiro da internet, o tópico seguinte discute As três gerações da web a partir de seu desenvolvimento na segunda metade do século XX. A Web 1.0 designa a primeira geração comercial da internet com conteúdos de baixa interatividade. A Web 2.0 é caracterizada por redes sociais e folksonomias (sites onde os usuários agregam valor pessoal a conteúdos). A Web 3.0, ou a Web Semântica de Tim Berners-Lee, denomina uma Web com maior capacidade de busca e auto-reconhecimento dos conteúdos por meio de metadados. O texto destaca as contribuições conceituais e operacionais de Theodore Nelson e seu conceito de hipertexto (1960) e de Tim Berners-Lee – que desenvolveu o modelo aberto da internet como uma ferramenta acadêmica para compartilhar informações e criou o World Wide Web Consortium (WWWC) (1989). A autora recupera ainda o contexto de ampla mudança – tecnológica, econômica, política, cultural e social – no qual se inscreve o fenômeno da internet e que dá os contornos, conforme sua interpretação, de uma sociedade em rede, uma economia informacional/global e uma cultura da virtualidade real. Quanto às gerações da web, julgamos que a 2.0 foi intensamente desenvolvida e a 3.0 já é uma realidade.
Na mesma direção, em A revolução nos conceitos de autoria e autoridade das fontes de informação nas plataformas open access a autora prossegue trazendo referências, todavia mais relacionadas ao impacto específico da internet na sociedade. Howard Rheingold (1993) cunha o termo comunidades virtuais e Sherry Turkle discute identidades e personas em ambientes virtuais. O conceito de hipertexto, conforme apresentado por Ted Nelson, viabiliza narrativas não-lineares e, para o filósofo da pós-modernidade Jean-François Lyotard, na sociedade em rede tem-se a vigência das mini narrativas. A não-linearidade narrativa, o acesso aberto e ferramentes como as wiki - sites que permitem ao usuário agregar ou editar informação - levam à reconfiguração dos conceitos de autor e autoria. Segundo o texto, no âmbito mais específico das publicações científicas, a polêmica instala-se em relação aos conteúdos sem revisão pelos pares, que afrontam a dinâmica do saber científico, baseada no consenso.
O texto, apesar de apontar outros projetos, destaca a Wikipedia: a enciclopédia on-line dos coletivos digitais como pivô da reconfiguração e dos conflitos em torno do conceitos de autor e autoria, devido ao seu tamanho e popularidade. A Wikipédia, cujo slogan é “a enciclopédia livre que qualquer um pode editar”, estrutura-se a partir do já citado software wiki, sendo seus artigos redigidos por numerosos autores e, talvez o que mais a diferencie das enciclopédias tradicionais, não há processo formal de revisão.
No tópico subsequente - Ausência de peer review: validação zero? – Passareli traz a avaliação realizada pela revista Nature (2005), que ao comparar, por peer review, a Wikipédia e a tradicional enciclopédia Britannica verificou que a diferença na acuidade não era significativa. Em um contraponto, apresenta também as críticas de Jaron Lanier, dentre as quais destacamos o posicionamento contrário ao entendimento de que a sabedorias dos coletivos digitais seja incontestável e de que a maior parte das informações científicas da Wikipédia já residia em sites de institutos de pesquisa.
No tópico de fechamento – O futuro do futuro - a autora traz o conceito “pacificador” de transcopyright de Ted Nelson e aponta para o fenômeno da convergência das mídias tradicionais para o celular (com internet) dialogando com o conceito de acesso a qualquer momento/em qualquer lugar e seu impacto comportamental e, destacando, por sua vez, o impacto na área da ciência da informação.
JUNQUEIRA, Antonio Helio; PASSARELLI, Brasilina. A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões. O Estatuto da Cibercultura no Brasil, Vol. 34, Nº 01, 1º semestre 2011. p. 62-75
Conforme as orientações recebidas, a proposta de resenha concentrar-se-á fundamentalmente na identificação de conceitos que interessam às discussões da disciplina.
O objetivo do artigo em apreciação é realizar uma revisão da trajetória do Núcleo de Pesquisa das Novas Tecnologias Aplicadas à Educação Escola do Futuro (NAP EF/USP), criado em 1989, cujo percurso entrelaça-se com a própria história da internet no Brasil, colocando-o na vanguarda da discussão e construção da cibercultura no país. Da leitura deste foram identificados conceitos, referências e metodologia estruturantes.
Em relação aos conceitos mobilizados pelo texto, destacamos: cibercultura, inclusão digital, literacia, sociedade em rede, atores em rede, protagonismo digital e etnografia virtual. Em relação ao conceito de “cibercultura”, trata-se do conjunto de práticas sociais emergentes no ambiente virtual da web, que oferece novas possibilidades de produção individual e coletiva de conhecimento, comunicação e relações socias.
A argumentação de Brasilina Passareli, coordenadora científica do NAP EF/USP, é uma chave interressante para a compreensão dos conceitos de “inclusão digital” e “literacia”, ou melhor, “da inclusão digital à literacia”. A autora reconhece duas “ondas” na sociedade em rede que vem se constituindo nas duas últimas décadas (1990-2010): uma primeira definida pelas preocupações, e respectivas políticas e programas, de inclusão digital; e a segunda que se detém nas diferentes formas de apropriação e de produção de conhecimento na web. Neste sentido, a inclusão digital está preocupada em garantir o acesso universal à internet, o que passsa pelo enfrentamento de questões técnicas e infraestruturais, sendo, por exemplo, o foco do programa “Acessa SP”, um dos projetos discutidos no artigo. Já a perspectiva de apropriação e produção de conhecimento, inscrita na complexidade e interatividade da web 2.0, extrapola as questões de acesso e se volta à construção de uma percepção crítica e holística da informação – de sua produção, disseminação e uso. Esta perspectiva é a da literacia. Conforme Junqueira e Passareli, a palavra literacia tem sido empregada no Brasil como tradução literal do termo inglês literacy e vem sendo entendida enquanto práticas sociotécnicas relacionadas à apropriação e uso das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) na contemporaneidade, definição que evidencia o que viemos de expor.
No texto aparecem os termos literacia, literacia informacional e literacia digital. Para Paul Gilster, que em 1997 cunhou o termo “literacia digital”, trata-se da “habilidade de entender e utilizar a informação de múltiplos formatos e proveniente de diversas fontes quando apresentada por meio de computadores (GILSTER, 1997:1 apud JUNQUEIRA; PASSARELI, 2011, p. 65). Encontramos outras sólidas referências nos conceitos de “sociedade em rede” e “atores em rede”, associados a Manuel Castells e Bruno Latour respectivamente, que contextualizam e sustentam a discussão e, na verdade, o próprio projeto do NAP EF/USP. O conceito de “protagonismo digital” é decorrente da perspectiva emancipadora e libertadora da literacia digital/informacional, à medida que os agentes podem tornar-se sujeitos ativos de sua educação, aquisição de conhecimentos e atuação social.
Para finalizar, retornamos à cibercultura, que entendemos ser o conceito-chave do artigo, para destacar que o NAP EF/USP encontrou na “etnografia virtual” - adaptação dos métodos tradicionais da Antropologia e dos instrumentos da pesquisa etnográfica: coleta e registro sistemático de dados da cultura investigada, simultânea imersão cultural do pesquisador e distanciamento do seu olhar sobre o outro - , com referência em Christine Hine, o suporte teórico-metodológico para o estudo dos comportamentos e produção de conhecimentos em comunidades virtuais de aprendizagem.
[1] http://www.mundaneum.org/. Acesso em: 26 set. 2021.