Resenhas (20/09/2021)
Postagem realizada em: 26/09/2021 às 00:08:20
Autor: André Sanches
Universidade de São Paulo – USP
Escola de Comunicação e Artes – ECA
CBD0200 - Recursos Informacionais I (2021)
André C. Sanches – nº USP: 11760207
Período noturno
Resumo Crítico Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação
A classificação e a organização do conhecimento são questões que não perdem espaço e importância com o passar do tempo, ao contrário, são atividades intelectuais que continuam em voga na contemporaneidade. A produção intelectual que já era significativa após a revolução da imprensa e o invento de Johannes Gutenberg no século quinze, tomou ares estratosféricos com o advento e a consolidação da internet entre o final do século vinte e o começo do século vinte e um. Contudo, o controle e o manejo da informação, dos recursos e das autoridades não surge do zero, mas sim, de um longo esforço e trabalho intelectual de mentes como a do intelectual Paul Otlet, considerado o pai da Ciência da Informação. Esse processo dinâmico e em constante desenvolvimento pode ser considerado mesmo revolucionário, como aponta o artigo Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação, de outubro de 2008, de autoria de Brasilina Passarelli, professora e vice-diretora da Escola de Comunicações e Artes (ECA – USP).
A preocupação com a organização do conhecimento é uma tarefa pensada e executada por diversos filósofos ao longo da história. Na Antiguidade Clássica, o filósofo Aristóteles dividiu o conhecimento em três categorias e subcategorias: teórica (Física, Matemática e Metafísica), prática (Ética, Economia e Política) e produtiva (Poética, Estética, Arte, entre outras). Na Idade Moderna, Francis Bacon classificou as ciências baseado em três aptidões mentais: memória (História), razão (Filosofia, Ciência, Matemática), e imaginação (Poesia, Arte, entre outras). O bibliotecário americano Melvin Dewey utilizando essas classes e acrescentando novos campos de saberes, criou um sistema de classificação do conhecimento amplamente utilizado, a CDD. Paul Otlet, utilizou as bases da CDD para, em parceria com o belga Henri la Fontaine, criar seu próprio sistema de classificação, a Classificação Decimal Universal (CDU).
Para classificar e abrigar fisicamente toda a produção humana de acordo com a CDU, Otlet projetou o Mundaneum, museu criado em 1910 e que é tido por muitos como um precursor da internet e de projetos como Wikipedia e Wolfram|Alpha. O artigo de Brasilina mostra que o ambicioso projeto de Paul Otlet também abarcava o desenvolvimento de uma enciclopédia universal baseada a partir do acervo coletado e indexado, bem como a construção de uma cidade do intelecto (city of the intellect). Em seu auge, o Mundaneum contava com aproximadamente 70.000.000 registros. Infelizmente, o Mundaneum teve seu acervo hospedado em diversas instituições e locais até ser fechado em 1934, ano de publicação da obra seminal de Otlet, o livro Tratado de Documentação.
Atualmente, graças a ferramentas como o Hiperlink e o advento da World Wide Web (WWW), criado pelo professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Tim Berners-Lee, a criação e edição de conteúdos se democratizou a tal ponto que nem sempre é simples conferir todos os dados que chegam até nós. Páginas criadas para compartilhamento de vídeos, textos e imagens, assim como redes focadas em interação social e jogos se alastram pela rede mundial de internet com velocidade e dinamismo, deixando nossa atuação na rede cada vez mais complexa. Essa complexidade também se apresenta no debate sobre autor e autoridade nas fontes de informação digitais.
Segundo o artigo de Passarelli, um viés que cresce exponencialmente, na web, é o debate sobre ferramentas abertas de produção e edição de conteúdo na internet, as denominadas wiki. A Wikipedia, mais conhecida enciclopédia do mundo digital, permite que qualquer usuário ou coletivo edite e participe ativamente da expansão da ferramenta. A política da Wikipedia deixa esse atributo de forma clara, e mesmo o reforça com o seu slogan: a enciclopédia que qualquer um pode editar.
Um problema que parece surgir é a confiabilidade dos artigos, afinal se qualquer um pode editar, como confiar nas informações fornecidas? Passarelli aponta que, em 2005, um estudo da revista Nature demonstrou que os erros encontrados na Wikipedia são numericamente similares aos erros encontrados na enciclopédia Britannica. Outra pesquisa, realizada por Vinícius Medina Kern, publicada na revista Perspectivas em Ciência da Informação por Vinícius Medina Kern, e publicada na revista Perspectivas em Ciência da Informação confirma a importância da Wikipedia como fonte de informação e pesquisa. Para o autor, que faz uma análise positiva da ferramenta, todos podem e devem verificar e analisar as fontes de referência utilizadas nos artigos, o que garante mais confiabilidade para o leitor.
Para o futuro, as perspectivas apontadas pelo artigo parecem estar se concretizando. É citado, pela autora, a convergência das mídias de massa tradicionais como televisão, rádio, imprensa, para os celulares, atualmente multifuncionais e denominados smartphones. Há também o impacto comportamental e social que as novas mídias podem causar na realidade objetiva: mobilizações, encontros, tendências etc. O lado negativo presente na web, como as fakes news, ou mesmo equívocos informacionais que ferramentas dentro da rede possam oferecer, podem e devem ser combatidos. Para isso, o uso educacional da Wikipedia ou do Google, por exemplo, pode ser encorajado e mediado por professores, apontando os benefícios e dificuldades que tais ferramentas possam apresentar. O futuro ainda pode apresentar novas e constantes mudanças para a área da Ciência da Informação. As noções do conhecimento e de acervo são campos abertos para ressignificações na era digital, e a acessibilidade livre pode atuar como facilitadora para a propagação da informação.
Resumo Crítico A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões
A história da Internet aberta ao ambiente comercial no Brasil se relaciona diretamente com o Núcleo de Pesquisa das Novas Tecnologias Aplicadas à Educação Escola do Futuro (NAP EF/USP). Há três décadas, ambos iniciaram sua trajetória no país. É nesse contexto que o artigo, de 2011, A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões, de Antonio Helio Junqueira e Brasilina Passarelli, perpassa pela história do NAP EF/USP, assim como suas ações visando, sobretudo, a inclusão digital e do fortalecimento da cibercultura no país.
Se atualmente é usual o acesso a internet em centros culturais, estabelecimentos e diversas localidades pelo país, em 1991 a realidade era completamente diferente. Em seus primeiros passos no Brasil, a primeira conexão via Internet foi restrita ao meio acadêmico, mais precisamente através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Em 1994 se inicia a trajetória da internet como conhecemos hoje, aberta ao público. Contudo, em meados dos anos noventa, o cenário apresentava inúmeras perspectivas e desafios para o desenvolvimento da rede no Brasil, e para atender e entender quais ações deveriam ser tomadas, foi criado o NAP EF/USP.
Desde então, o crescimento da Internet no Brasil foi robusto. No artigo consta que, em 2011, o Brasil liderava o ranking de concentração de computadores e de acesso à Internet na América Latina. Assim, o NAP EF/USP pautou ações baseadas na consolidação da cibercultura no país, pensando desde a inclusão digital baseada em perspectivas histórico-sociais até o processo e as formas de apreensão e produção de conteúdo informacional. Vale ressaltar que o termo cibercultura, ou cultura da Internet, é uma noção imprescindível nos dias de hoje. A era da conexão, da informação, esta intimamente ligada com o poder de acesso informacional digital, tal como o acesso e manuseio dos dispositivos e suportes que operam para realizar a conexão com a rede.
A Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo (PASSARELLI, 2010), atua nesse âmbito, dando luz a questões como o letramento, a habilidade e a competência virtual. O termo web literacy, ou literacia digital, compreende as habilidades de uso das ferramentas de acesso, leitura, interpretação, pesquisa e navegação. No mundo digital, a ideia de literacia denota a capacidade dos indivíduos atuarem e se comunicarem utilizando-se das tecnologias de informação e comunicação (TICs). No Brasil, as pesquisas sobre literacias digitais são objetos de pesquisa do NAP Escola do Futuro, da USP, sob a coordenação científica da pesquisadora e professora Brasilina Passarelli.
As ações do NAP EF/USP se fundamentam na proposta de pesquisa/ação, de forma com o que a atuação da população observada seja ativa. Isso vem de acordo com a noção de protagonismo educacional, no qual os alunos são os sujeitos ativos de seus próprios processos educacionais. Alguns dos projetos em que o núcleo NAP EF/USP está envolvido merecem destaque: O AcessaSP (com foco na inclusão digital); o Projeto EntreMeios São Bernardo do Campo (que visa promover o uso das TICS em escolas municipais; o Acessa Escola (que busca a inclusão digital de alunos da rede pública estadual de ensino); o Programa Rede São Paulo de Formação de Docente – REDEFOR (programa para a capacitação profissional de educadores da rede estadual).
Sendo assim, o NAP EF/USP segue tendo um papel relevante na consolidação do aprendizado dos novos domínios da informação digital, assim como o estabelecimento da cibercultura no Brasil. O núcleo atua de maneira ativa e vanguardista em ações que promovem a inclusão digital para parte da população com dificuldade, ou mesmo sem acesso às ferramentas digitais. O artigo de Passarelli e Helio Junqueira segue pertinente ao demonstrar o amplo espaço de pesquisa e atuação que acontece por meio de projetos sociais, e que ainda pode ocorrer no Brasil e no mundo, visto a constante renovação e atualização dos modos de se interagir nas constantes novas tecnologias da informação.
Referências
PASSARELLI, B. Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação. DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.9, n.5, out. 2008.
JUNQUEIRA, A. H.; PASSSARELLI, Brasilina. A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões. LOGOS, vol.34, n.1, 2011.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda.; Martins, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à filosofia. São Paulo: Editora Moderna, 1986. 443 p.
Kern, V. M. Por que a Wikipédia pode e deve ser usada para o ensino. Nexo jornal, 26 de mar de 2020. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/academico/2020/03/26/Por-que-a-Wikip%C3%A9dia-pode-e-deve-ser-usada-para-o-ensino> acesso em: 21 set. 2021.