Resenhas - 20/09/2021
Postagem realizada em: 25/09/2021 às 16:38:46 - Última atualização em: 25/09/2021 às 16:40:25
Autor: Thaina Oliveira
Thaina Aparecida Corpa da Silva Oliveira
NUSP 11913691
Período matutino
RESENHA:
Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação
PASSARELLI, Brasilina. Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação. DataGramaZero, v. 9, n. 5, 2008. Disponível em: http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/6370. Acesso em: 20 set. 2021.
O presente artigo referenciado percorre as discussões acerca do acesso à informação com o passar dos anos, as transformações observadas e possíveis projeções futuras. Parte da apresentação de Paul Otlet como criador da área da Documentação e pioneiro das iniciativas de organização bibliográfica e acesso à informação, iniciativas essas que influenciaram diversos pesquisadores mais tarde.
A importância de se recuperar os feitos de Otlet nessa discussão se dá, principalmente, por, já na primeira metade do século XX ele ter pensado projetos como a Classificação Decimal Universal (CDU) - com base na Classificação Decimal de Dewey (CDD), o Instituto Internacional de Bibliografia (juntamente com Henri LaFontaine) e o Mundaneum, este último a proposta de reunir um grande acervo como uma enciclopédia em “vida real”, com milhões de entradas disponíveis em um museu. Ainda que a iniciativa do Mundaneum não tenha se concretizado como planejava devido à diversos fatores que envolviam a disposição de espaços para abrigar o museu e a dispersão de seu acervo, não se pode deixar de considerar que o empreendimento de Paul Otlet foi um ponto de partida para que outros cientistas pudessem pensar em um controle e disponibilidade informacionais de modo amplo e que fosse adaptado às necessidades que a nova era de explosão científico-informacional demandava.
Dessa forma, mais tarde, na década de 1960, o conceito de hipertexto foi desenvolvimento por Theodore Nelson, e apreendido por Tim Berners-Lee, em 1989, na concepção da rede Internet. Foram diversos os fatores políticos, sociais, científicos e econômicos que influenciaram as transformações da segunda metade do século XX, mas pode-se observar que os feitos resultantes destes processos mantiveram em mente, ainda, o ideal de acesso à informação aceso, bem como a perspectiva de interatividade entre informações já existentes e controladas por diversas pessoas, em qualquer lugar - como já indicado, ideias já preconizadas por Paul Otlet anteriormente na história da Ciência da Informação.
O grande feito de Tim Berners-Lee em 1989 foi pensar a Internet como um modelo aberto de compartilhamento informacional entre cientistas, e que possibilitaria a neutralidade e a igualdade no acesso e tratamento à informação. A chamada Web 1.0, a primeira geração da Web não atingia ainda um elevado nível de interatividade, que foi possível com a segunda geração, a que hoje vivemos, da Web 2.0. As ferramentas disponíveis, as redes sociais e colaborativas compõem atualmente elevados níveis interatividade e acesso instantâneo, seja como meio de comunicação, de leitura, de cooperação e publicação coletiva ou individual. Fala-se, ainda, em uma terceira geração, referenciada como Web 3.0 ou Web Semântica que elevaria ainda mais as possibilidades de interação e, para além, possibilitaria a agregação de valor a informações a partir dos próprios usuários, e não a partir das próprias máquinas. Ainda que a Web Semântica não exista de fato, projetos citados no artigo como o Friend of a Friend (FOAF), Piggy Bank, Amazon mechanical Turk e o Google Image Labeler são exemplos de iniciativas que se movem na direção de uma Web 3.0.
No geral, discute-se o imaginário sempre presente e em constante reformulação e evolução de acesso, mas, faz-se necessário também voltar-se para questões de autoria, autoridade e validação informacional. Em um espaço em que todos podem publicar, editar, e sem necessariamente se identificar, a validade e legitimação das informações é posta em risco e ameaça processos já consolidados na ciência como o peer review, transformando saberes de senso comum, por exemplo, em ciência a partir do consenso - e não da avaliação rigorosa.
Em uma era cada vez mais complexa, é imprescindível pensar as transformações por diferentes vias pois pode-se tirar proveitos e, ao mesmo tempo, consequências negativas de um mesmo sistema. É discutido, por exemplo, a Wikipédia e seu ideal de disponibilização de informação de modo livre à todas as pessoas, com a autoria e colaboração de quaisquer usuários dispostos, em qualquer lugar do mundo. Ainda que não tenha sido a única iniciativa realizada por esta perspectiva, a Wikipédia foi o empreendimento de maior sucesso, e é hoje uma das principais fontes de informação para as pessoas.
Ainda que funcione com a edição aberta por todas as pessoas, a Wikipédia é regida por diretrizes que visam manter a integridade, a colaboração, a seriedade e a transparência quanto aos seus seus editores e colaboradores. Em estudos voltados para a investigação da confiabilidade da Wikipédia, como o estudo citado da revista Nature, em 2005 e estudos posteriores a este, tem-se que não existem diferenças significativas em relação a informações erradas ou incompletas, por exemplo, quando em comparação a Wikipédia e a Enciclopédia Britannica. Neste contexto, é possível refletir a Wikipédia por diversos pontos de vista, sendo um deles o de Jaron Lanier, recuperado no artigo aqui referenciado.
O autor indaga os valores de autoria e confiabilidade diante da importância exponencial de redes de acesso rápido e generalizado como a Wikipédia, bem como a questão do consenso anteriormente citada, no sentido de que, se várias pessoas contribuíram para o desenvolvimento de um verbete, as informações ali expressas devem ser confiáveis. Nesse sentido ele indica que, anteriormente na história da sociedade a tentativa de viabilizar uma narrativa única e coletiva não se mostrou eficaz, ponto de vista possível de ser relacionado com Jean-François Lyotard, autor também recuperado no artigo, que indica que “as grandes narrativas [...] não mais se sustentam na sociedade em rede onde predominam as mini-narrativas que são tópicas, temporárias, contingenciais e relativas” (2008, p. 8?).
Lanier argumenta também que as informações reunidas na Wikipédia já existiam em acesso aberto em outros sites de institutos de pesquisa, por exemplo, e que a disposição de informações “impessoais” em enciclopédias livres pode corroborar para a dispersão entre pessoas, em contraposição com o ideal de conexão da Internet. No entanto, faz-se necessário observar por outra perspectiva também que, embora as informações pudessem ser acessadas em outras plataformas anteriormente, a Wikipédia possibilita o acesso à grande população que não acessaria periódicos científicos e portais de institutos de pesquisa, seja por questões de acesso em seu sentido direto, como em relação à questões de linguagem e contextualização, que distanciam a população leiga e com baixa escolaridade, por exemplo.
Além disso, para que os verbetes sejam de fato válidos para publicação na Wikipédia, são exigidas referências consistentes com os textos propostos, e que podem ser acessadas pelos usuários via hipertexto/hiperlink. Nessa perspectiva, é relevante pontuar a discussão conclusiva do artigo, que apresenta projeções para o acesso informacional nas redes futuramente. Nesse sentido, tem-se Ted Nelson e sua proposta de transcopyright, como uma licença que possibilitaria, ao mesmo tempo, que detentores de copyright tivessem seus direitos garantidos e seus conteúdos disponibilizados online. Segundo a definição da autora “O transcopyright permite que se utilize trechos de uma obra misturando-os a outros trechos criando um novo documento desde que sejam mantidos links para os documentos originais e assim se possa cobrar pelos trechos utilizados” (2008, p. 10?). Essa é uma das possíveis soluções para as questões que hoje envolvem o acesso amplo à Web, e, que, assim como várias outras, devem ser consideradas, pensadas e discutidas, visando a resolução de problemas já existentes, a minimização de possíveis problemas futuros, e, ainda, a perspectiva de inovações que façam possível o desenvolvimento democrático e igualitário da informação no ciberespaço, e na sociedade de modo geral.
RESENHA:
A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões
JUNQUEIRA, Antonio Helio; PASSARELLI, Brasilina. A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões. LOGOS 34: O Estatuto da Cibercultura no Brasil, v. 34, n. 1, 2011. Disponível em: http://www.logos.uerj.br/PDFS/34/05_logos34_junqueira_passarelli_escola.pdf. Acesso em: 20 set. 2021.
“A Escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil”, de autoria de Antonio Helio Junqueira e Brasilina Passarelli expressa importantes iniciativas de atuação social diante das novas perspectivas digitais e dos desafios à elas crescentes. Apresenta-se as várias atividades realizadas pelo Núcleo de Pesquisa das Novas Tecnologias Aplicadas à Educação Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (NAP-EF/USP) no processo de promover a inclusão digital e as literacias digitais nos vários contextos sociais, educativos e científicos, desde o surgimento de fato do acesso à Internet no Brasil ao final do século XX, até os dias de hoje, quando o olhar para a Web 2.0 transforma-se ao passo que as possibilidades de interação e conectividade também de modifica.
Antes mesmo de tratar das práticas realizadas de fato neste contexto, foram empreendidas diferentes definições conceituais imprescindíveis para a discussão deste tema. Ao falar em “literacias digitais”, recorre-se, na verdade, ao termo em inglês de literacy, que não pode ser traduzido literalmente para a língua portuguesa. No entanto, no contexto da Escola do Futuro, o termo vem sido utilizado pois apreende um conjunto de significados que termos como letramento, habilidade ou competência não atingem. O processo de literacia atua para além destes três processos, envolvendo, sim, o letramento no âmbito da educação formal, e o desenvolvimento de habilidades e competências, mas, para além disso, traduz-se como um processo contínuo de cultivo de múltiplas faces de socialização e que empreende uma educação/instrução em multiplicidade, conformes à, como expresso no artigo, “habilidades motoras e de interação pessoal”, habilidades cognitivas “relacionadas ao raciocínio, intelecto, capacidade de análise, avaliação e crítica” e que atua com “foco na prática social e na aplicação da crítica, da reflexão, do julgamento e da cognição” (2011, p. 66).
Diante do exposto, a motivação para a atuação pioneira do NAP-EF/USP se dá pois, com o cultivo das literacias digitais, as transformações sociais são inumeráveis. Os efeitos atingem não apenas o âmbito pessoal de cada indivíduo, mas o coletivo, pois referem-se ao desenvolvimento do raciocínio crítico quanto às informações, à compreensão dos contextos de “produção, disseminação e uso dessas mesmas informações”, ao engajamento e participação ativos em “suas comunidades, seus contextos, valores, demandas e interações políticas e sociais” e possibilita, assim “que os agentes podem tornar-se sujeitos ativos de sua educação, aquisição de conhecimentos e atuação social”. Promove-se, por fim, o “protagonismo individual, [...] o fortalecimento da democracia e da cidadania ativa e consciente, [...] a expressão cultural e [...] a realização pessoal” (2011, p. 66). À vista disso, pode-se afirmar que, após reflexão dos pontos levantados do artigo anterior, “Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação”, a promoção das literacias digitais seriam a solução de muitos dos problemas que a rápida expansão e dispersão informacional significam na atual era da Web 2.0.
Nesse sentido, é importante conhecer os vários projetos com participação do Núcleo de Pesquisa das Novas Tecnologias Aplicadas à Educação Escola do Futuro da Universidade de São Paulo. O Programa AcessaSP, de abrangência ao Estado de São Paulo, por exemplo, disponibiliza equipamentos, infraestrutura e acesso à Internet em parceria com os municípios e com as secretarias e órgãos do Governo do Estado de São Paulo, além de produzir conteúdos educativos nos âmbitos digitais e não-digitais. O Programa Rede EntreMeios São Bernardo do Campo atua no referente município diretamente nas escolas de rede pública, promovendo a integração de uso das TICs, de modo semelhante ao Programa Acessa Escola, do Estado de Sâo Paulo, que incentiva “a inclusão digital de alunos da rede pública estadual de ensino e o fortalecimento da autonomia do aprendizado, contribuindo para a inserção desse público de maneira colaborativa na cultura digital, por meio do uso da Internet na Escola” (2011, p. 71).
Estes são alguns dos vários exemplos de iniciativas de promoção das literacias digitais com envolvimento do NAP-EF/USP, e são de extrema relevância pois, além de eles próprios já fazerem a diferença para os vários indivíduos e instituições que são por eles beneficiados, eles são também exemplos de como é possível promover os vários desenvolvimentos de literacias digitais em diversos contextos, podendo significar a inspiração e motivação para que tantos outros projetos surgissem até hoje.