Resenhas críticas 20/09/2021
Postagem realizada em: 24/09/2021 às 22:15:02
Autor: Amanda Rosa
Resenha crítica: Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução dos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação
O artigo aborda de forma histórica o desenvolvimento da ciência da informação, partindo do Mundaneum, projeto idealizado pelo pioneiro Paul Otlet, até a Web Semântica, que ainda está sendo testada como possibilidade no mundo real e conta com projetos em andamento. Mais do que um apanhado sobre o passado, também traz referências sobre debates sobre autoridade e autor na contemporaneidade e aponta mudanças em andamento no campo da ciência da informação.
Conforme vemos, Otlet foi um homem visionário e seu ambicioso projeto “Mundaneum pode ser considerado a Internet em fichas de papel”. Por meio dele o estudioso chegou a reunir mais de 70 milhões de obras no acervo físico e com Le Corbusier projetou uma Cidade do Intelecto que abrigaria museus e universidades ao redor do Mundaneum. Apesar de desinstalado do prédio público que originalmente o abrigava, o sonho de Otlet ainda é hospedado em tamanho bem mais compacto no Centro de Arquivos da Comunidade Francesa. Ideias do patrono da Documentação foram posteriormente concretizadas em outras invenções e seu legado foi reconhecido pelo consórcio que administra a WWW – World Wide Web - em forma de torná-lo o CEO da instituição.
Prosseguindo, somos introduzidos a grandes nomes que tornaram a Internet possível. Entre eles, Theodore Nelson, que cunhou o termo hipertexto, e Tim Berners-Lee, responsável pela rede Internet. Tim Berners-Lee tornou a rede eficiente como uma ferramenta acadêmica e influenciado pela cultura hippie definiu a importância da neutralidade da rede. Em outras palavras, se invertia a lógica de hierarquia de informações e todos teriam igual valor de informação e relevância no ambiente virtual. A Internet daria novos rumos para o fim do século XX e para o início do século XXI, transformando economia e cultura.
Continuando, insere-se o consenso de definir as três gerações da Web. A Web 1.0 é a fase da Internet, com pouca interatividade, enquanto a Web 2.0 é a etapa que estamos bombardeados atualmente, com a relevância conquistada por redes sociais e folksonomias. Como estudantes de biblioteconomia, há outro aspecto fundamental: publicação automática de conteúdo, como a Wikipédia. A seguir, temos a Web 3.0, a Web semântica, baseada em metadados, que ainda está em fase de projetos promissores em andamento, mas não se provou como válida no uso real e cotidiano. Um dos projetos mais instigantes é o Amazon Mechanical Turk, mistura polemica de inteligência artificial via recrutamento de seres humanos pagos por hora.
Para finalizar, foi peculiar a avaliação da Revista Nature comparando a Wikipedia e a Britannica a fim de verificar sua acurácia: não houve muito mais erros na enciclopédia de colaboração coletiva do que na tradicional enciclopédia nacional. Porém, somos provocados a questionar a ausência de peer review e das novas formas de criar e compartilhar conhecimento por Jaron Lanier. O ilustre autor e artista incita grandes questionamentos sobre a importância que esses métodos ganharam em pouco tempo, a sabedoria de grandes coletivos (a humanidade já cometeu graves crimes sob o pensamento de uma horda) e a morte do autor individual. Por fim, temos a perspectiva de que o Transcopyright é a tendência mundial e nacional, assim como a convergência para o celular das mídias tradicionais, que afinal de contas sobreviveram (se reinventando e muito) ao advento da Internet. Como considerações finais é certo dizer que a Biblioteconomia e a Ciência da Informação passarão por grandes desafios e oportunidades no decorrer deste século e será necessário que sejam resilientes e criativas para manterem espaços de importância e incorporar novos em uma cultura e economia cada vez mais voltada ao valor do conhecimento. Não podemos deixar de considerar que apesar de parecer ser uma força da natureza – incontrolável e que draga tudo ao seu redor – cabe também a nós, profissionais da informação, uma visão crítica sobre a Web e seu papel na humanidade que queremos ser, lidando com questões urgentes dos aspectos ambiental, social, político e econômico.
Resenha crítica: A escola do Futuro (USP) na construção da cibercultura no Brasil: interfaces, impactos, reflexões.
O artigo traz as conexões entre o núcleo NAP Escola do Futuro/USP e a trajetória da Internet no Brasil. Podemos notar que a preocupação inicial se voltou para a garantia de democratização de acesso à rede Internet e atualmente se debruça sobre as dinâmicas sociais e culturais desenvolvidas na sociedade em rede. Atuando com metodologias como etnografia virtual e projetos de EAD (educação a distância), o núcleo buscou incessantemente colher fotografias dos diferentes momentos de impacto da Internet e da TICs na sociedade brasileira.
A primeira conexão de Internet do Brasil ocorreu em ambiente acadêmico, em 1991, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPESP). Esse marco temporal e espacial, tanto por se dar na década de 1990, com a ebulição de novos rumos na geopolítica mundial que apontava para certos horizontes pós-Queda do Muro de Berlim, quanto pelo fato de no espaço brasileiro ter ocorrido no estado mais populoso e rico do país, algo que explicaria muitas nuances que viriam a seguir. Criações como o WWW, HTTP e HTML foram fundamentais. Deste modo, as TICs – tecnologias de informação e comunicação – ganharam cada vez mais espaço e atenção do NAP EF/USP. Frente às novas oportunidades que essas novas tecnologias tornavam possível no âmbito da produção de conhecimento, comunicação em rede e relações sociais, também interessava a esse núcleo de pesquisa entender e mergulhar na dinâmica da “sociedade em rede” e dos “atores em rede” que lá atuavam.
Prosseguindo, vemos a trajetória da Internet e das TICs no Brasil, com a popularização crescente de computadores pessoais (PCs) e acesso à Internet. Para agir como braço da universidade na sociedade, o NAP EF/USP se debruçou em duas ondas na sociedade em rede nacional: a primeira onda voltada à mitigação da exclusão digital, a segunda onda trazendo a necessidade de reflexão frente às novas realidades e formas de interação e produção de conhecimento e cultura que a sociedade em rede impulsionava. Continuando, Junqueira e Passarelli abordam os desafios da conceituação de literacia, que assim como em muitas outras línguas, não encontra correspondência direta com nenhum verbete na língua portuguesa. As literacias digitais e informacionais podem ser entendidas como um processo holístico de habilidades físicas, cognitivas e sociais de lidar com informação, como pressuposto fundamental para o desenvolvimento pessoal e cidadão.
O núcleo de pesquisa aplicou a metodologia de etnografia virtual. Ela se baseia em princípios da Antropologia, e os pesquisadores passam por imersão no convívio das redes em Internet para apreender melhor as rotinas, percepções e construções tão presentes em nossa contemporaneidade. Outra aplicação e pesquisa do núcleo foi realizado por projetos com foco na educação formal e informal, tais como: Programa AcessaSP; Programa Rede Entremeios São Bernardo do Campo; Programa Acessa Escola, REDEFOR.
Sendo assim, podemos concluir a pertinência dos objetivos e metodologias do NAP Escola do Futuro/USP na configuração dos espaços sociais do país. Cabe ressaltar que programas voltados à inclusão digital foram essenciais e ainda hoje merecem destaque, talvez com novas roupagens, frente a desafios da pandemia de COVID-19 para a educação básica e a convergência de mídias tradicionais e da educação formal e informal para o aparelho celular (smartphones). Apesar de muito mais inclusivo, como país de dimensões continentais, o acesso à Internet de forma significativa e estável ainda se concentra nos grandes centros urbanos. Para o presente e para os anos futuros ainda há muito que se debruçar sobre limites entre liberdade de expressão e respeito à Constituição, acesso amplo a PCs e notebooks para classes mais baixas e o quanto o tecido cultural será transformado pela fadiga do excesso de informação e ruído proporcionado pelo enfoque dado principalmente ao que chamamos de Web 2.0.