Recordação de leitura (21/06/21)
Postagem realizada em: 22/06/2021 às 02:05:09 - Última atualização em: 22/06/2021 às 02:15:10
Autor: Rubens C.
No encontro acadêmico mais recente, datando 26/06 e com a apresentação sobre as bases de dados de grandes grupos editoriais - tal qual Elsevier e Springer -, surgiu o tópico sobre a figura do bibliotecário como editor científico, e em consequência, a memória sobre um livreto que li no início da graduação:, intitulado "Missão do bibliotecário" e com autoria de José Ortega y Gasset.
Em 1935, na cidade de Madri, Espanha, Ortega y Gasset (1883-1955), que foi ensaísta, jornalista e ativista político, amplamente considerado um dos maiores filósofos espanhóis do século 20, discursou durante o 2º Congresso Mundial de Bibliotecas e Bibliografia sobre qual seria a missão do bibliotecário - e mais tarde, esse viria a ser o título do livreto que, com a transcrição do discurso e complementos, foi publicado pela Briquet de Lemos no Brasil, em 2006 (foram "apenas" sete décadas de atraso).
Em suma, após introduzir sua intenção de não ensinar algo sobre as técnicas biblioteconômicas, mas sim pontuar pensamentos sobre o papel da profissão, Ortega y Gasset reflete sobre o significado do palavra "missão". Para identificar qual seria a missão do bibliotecário, ele discorre um breve histórico sobre a trajetória, os contextos e impactos da atuação profissional, partindo do século 15 até o século 19. Assim, traça um base para definir qual é a "nova missão": cuidar do livro como função viva, atuando metaforicamente como a "polícia" ou o "higienista" dele, domando aquele que parece indomável em prol da difusão do conhecimento. Com isso, podemos entender, conforme o autor esclarece depois, que o caráter de policiar e higienizar a leitura não é negativo, mas sim atuante como um filtro entre o sujeito que busca o conhecimento e aquele que sabe como dispô-lo; aquele que seria um mediador entre o conflito do quantidade de livros (no caso, informação produzida e divulgada, no geral) e a qualidade da leitura, tendo em vista que somos todos mortais e que apreender todo conhecimento que uma expectativa de vida de 80 anos (no Brasil, em um dado pré-Covid 19) proporciona, é insuficiente.
Bom, inserida em um contexto específico e passível de ambiguidade, Ortega y Gasset abandonou a metáfora do policiamento e higienização, mas levantou, notadamente, na década de 1930, a questão da mediação bibliotecária e também a possibilidade de sua atuação estar envolvida a automação controlada, dinamizando as práticas básicas de controle e recuperação bibliográfica, e também a participação em coletivos editores, observando e avaliando o que se produz desde a concepção - e é aqui que surge o vínculo com a aula
É certo que tais colocações, durante a leitura e a aproximação com a Biblioteconomia, promove polêmicas. Recentemente, presenciamos o caso da Fundação Palmares, que declarou a retirada de metade das obras de seu acervo por conta de um caráter ideológico não compactuante com a unidade - ou seria com aquele que faz a gestão dessa unidade? E com isso, podemos tomar base na fala de Ortega y Gasset para reforçar que, além da profissão bibliotecária ser constantemente atualizada com o avanço da tecnologia e o contexto social no qual se insere, ela depende de um senso humanista, crítico, consciente de ideologias diferentes mas nunca agindo como alguém que censura ou limita determinada informação por via de uma decisão institucional ou coletiva; em combate à qualquer tipo de opressão e falseamento do que é fatídico, historicamente. Enfim, surge problematizações que envolvem tanto o cenário bibliográfico quanto o digital, no que diz respeito a uma fundamentação da figura bibliotecária como editora. E tais problematizações despertou o interesse por procurar saber mais sobre esse processo e resultados.