Aula 05 (24/05) - Palestra Angeluci - Capitalismo de vigilância
Postagem realizada em: 17/06/2021 às 21:00:34 - Última atualização em: 17/06/2021 às 21:00:51
Autor: Daniel Zaidan
Um dos temas abordados pelo pesquisador Alan Angeluci em sua apresentação foi a caracterização do paradigma atual das tecnologias de comunicação, e uma autora mencionada foi a Shoshana Zuboff e o conceito de “Capitalismo de vigilância”.
Capitalismo de vigilância (Surveillance capitalism) é o conceito elaborado pela pesquisadora Shoshana Zuboff para descrever uma nova forma do sistema econômico de explorar dados pessoais e transformá-los em commodities para serem negociados.
De acordo com Zuboff, em seu texto “Surveillance Capitalism and the Challenge of Collective Action”, o Capitalismo de vigilância de nosso tempo age repetindo o “pecado original” da acumulação primitiva, descrita por Marx, mas com a diferença de que, em vez de reivindicar o trabalho, as terras ou as riquezas alheias, esse novo sistema procura transformar experiências privadas em dados que possam ser comercializados no mercado. (ZUBOFF, 2019).
Para a autora, a experiência da Google de passar a utilizar os dados dos usuários, coletados pelo seu mecanismo de busca, para o direcionamento de publicidade foi decisiva para a conformação do capitalismo de vigilância como sistema. Se antes a Google usava as informações sobre os comportamentos de seus usuários apenas para a melhora de seus próprios produtos e serviços, e com isso acumulava enorme quantidade de dados “inúteis”, com a nova forma de monetização, a Google passou a lidar com o que a autora chamou de “mais-valia comportamental” (behavorial surplus), que diz respeito ao excesso de informação que a empresa está constantemente gerando sobre os hábitos e comportamentos de seus usuários.
Foi o enorme sucesso da capacidade da Google para direcionar publicidade que revelou a transformação do valor dessa “mais-valia comportamental” e sua maneira de gerar renda a partir de seus verdadeiros clientes, os anunciantes.
De acordo com Zuboff, o essencial nessa formulação é que a Google não está negociando diretamente com os usuários, mas com empresas que lucram apostando nos comportamentos futuros das pessoas. Assim, os usuários não são os compradores ou vendedores nessa lógica, mas são o “recurso humano natural” de matéria-prima que alimenta um processo fabricação de “produtos de projeções”. Esses produtos são cálculos que estimam o que indivíduos e grupos irão fazer agora e no futuro, e por mais que esses produtos fossem inicialmente destinados ao comportamento online dos indivíduos, com a Internet das Coisas (IoT) e a massificação de produtos “inteligentes”, cada vez mais esses produtos e suas previsões comportamentais vêm ganhando novas abrangências.
É importante ressaltar que a pesquisadora afirma que não devemos reduzir o conceito de Capitalismo de vigilância às práticas e ações da Google, apesar de apontar essa empresa como pioneira no ramo. Hoje esse modelo de negócio é amplamente utilizado por diversas empresas de diferentes atuações, desde as empresas de produtos digitais do Vale do Silício até as indústrias de aparelhos eletrônicos “inteligentes”.
Assim como não devemos confundir todo o sistema do Capitalismo de Vigilância com uma empresa em particular, também é necessário que não o confundamos com a tecnologia em si, que o torna possível e viável. A autora explica que o sistema econômico é quem dá a orientação do uso da tecnologia, que seria a marionete ou fantoche visível sendo controlada pelo sistema econômico. Nesse sentido, o “capitalismo de vigilância não significa diretamente algoritmos, sensores, máquinas inteligentes ou plataformas, apesar de depender diretamente deles para se expressar.” (ZUBOFF, 2019, p. 11 tradução nossa).