A antropologia do conhecimento surgiu quando os antropólogos começaram a analisar categorias e meios de classificação de diferentes povos, considerando seus contextos sociais, até o momento ignorados. Portanto, existem variedades de conhecimento, entre as principais estão a teoria e a prática, que apesar de se contraporem com frequência, são complementares.
Outra distinção importante é entre o conhecimento privado – limitado a uma elite – e público, trazendo assim a questão controversa sobre qual conhecimento que deve se tornar público. Diversas pessoas debateram sobre este ponto, como exemplo há a Reforma feita por Lutero, que lutou para tornar o conhecimento religioso acessível para leigos. Contudo, o ideal de conhecimento público está diretamente ligado ao surgimento da imprensa.
Assim, com a análise de três subsistemas – currículo, biblioteca, e enciclopédia – a parte fundamental da classificação do conhecimento acadêmico pode ser realizada.
No início, o currículo das universidades era mutável pela micropolítica e também pelas necessidades pedagógicas de cada local. Já as bibliotecas dependiam das limitações financeiras. E, por fim, as enciclopédias eram vendidas no mercado aberto. Eram, contudo, “equipamentos intelectuais” por possuir um papel fundamental para os universitários.
A ordem dos livros nas bibliotecas europeias seguia o currículo das universidades, portanto, as que sobreviveram com o passar do tempo agora podem ser utilizadas como objeto de estudo da arqueologia do conhecimento. Esse estudo se realizada por meio da análise de vestígios físicos como catálogos e bibliografias, que representam a organização das bibliotecas e seus sistemas de classificação.
As obras eram classificadas em diferentes categorias de acordo com a região e religião. Mas, de forma geral, as principais categorias organizacionais eram literatura, filosofia, história, teologia – variando entre o cristianismo e o judaísmo, por exemplo –, além dos cursos superiores (teologia, direito e medicina).
O terceiro subsistema era a enciclopédia, termo que inicialmente se referia a livros com conteúdo que seguia o mesmo currículo das universidades – contendo assim uma divisão em categorias muito semelhantes –, podendo auxiliar os estudantes ou até mesmo substituir as instituições, no caso de autodidatas. As enciclopédias tinham a intenção de trazer o conhecimento universal para seus leitores e eram editadas, em sua maioria, por professores universitários, que compartilhavam suas visões sobre o conhecimento e o mundo.
Os três itens mencionados se apoiaram de forma mútua durante um longo período, assim como o enfoque das universidades na teologia, direito e medicina, contudo, entre o Renascimento e o Iluminismo, ocorreram mudanças significativas no conhecimento definido como acadêmico. Logo, alguns estudiosos começaram a estudar e modificar os sistemas de classificação do conhecimento, pensando na reforma dos currículos, bibliotecas e enciclopédias.
Os catálogos e bibliografias foram se adaptando e criaram categorias para a organização dos livros, um exemplo marcante é o de Francisco de Araoz que, em 1631, propôs uma classificação com 15 categorias. Porém, havia também outros modos mais simples de ordenação que incluíam 7 ou 10 categorias somente.
Outros estudiosos também fizeram grandes contribuições ao campo que viria ser a biblioteconomia, como Gabriel Naudé, que caracterizou a biblioteca não apenas como uma pilha de livros, mas sim como um ambiente no qual seria fácil de encontrar os livros, ou seja, organizado e baseado no currículo das universidades com categorias em acréscimo. Naudé foi um dos bibliotecários-filósofos, com Melvil Dewey, criador do sistema decimal de classificação.
A quantidade de enciclopédias também se expandiu com a imprensa, tanto por proporcionar rapidez para o processo de fabricação quanto por torna-las mais necessárias. O conhecimento impresso crescia de forma rápida e constante, portanto, os cidadãos utilizavam as enciclopédias como uma forma de guia. Assim, surgiram alterações em suas categorias e a mais marcante aconteceu por volta do século XVII, ela colocava a ordem alfabética como sistema principal de classificação e não mais secundário,
Por fim, o passar dos séculos levou diversas inovações e conhecimentos para a Europa, então os estudiosos começaram a buscar por novidades e não mais se apoiar somente nas tradições do conhecimento, incentivando cada vez mais os universitários a inovar e produzir trabalhos acadêmicos.
BURKE, Peter. A classificação do conhecimento: currículos, bibliotecas e enciclopédias. In: BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Tradução de Plínio Dentzien. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 78-108.