Os anxiomáticos da computação e bibliometria


Axiomático é um conceito trabalhado pela lógica, matemática e engenharia, porém, à grosso modo, podemos definir axiomático como algo evidente e ainda caracterizar um sistema axiomático funciona como uma espécie de ferramenta que amplia a capacidade humana de se pensar. Indo além, podemos encaixar o computador perfeitamente dentro da definição de extensão da aptidão do processo do pensamento, do mesmo modo que um celular é um cérebro na mão (Coelho, 2016). 

 

 

Computadores processam dados, e apesar de termos Charles Babbage para agradecer pela idealização de computadores programáveis, o dito pai da Ciência da Computação é o inglês matemático, lógico e criptoanalista Alan Turing. Turing integrou o projeto Ultra, em Bletchley Park, cuja motivação era quebrar os códigos secretos de mensagens criptografadas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial na máquina Enigma. Turing criou um modelo matemático que é o protótipo computacional que conhecemos, uma máquina que trabalha com algoritmos (sequência de instruções), firmemente baseado em uma série de procedimentos necessários para alcançar um resultado: a bomber, máquina de testes de configurações simultâneas com rotores. Outra contribuição muitíssima importante do cientista, ainda, foi o desenvolvimento da Colossus, precursora dos computadores. Turing se suicidou em 1954 após ser castrado quimicamente pela infração de “indecência pesada” que foi se envolver sexualmente com um homem na época.

 

 

Entretanto, o impacto da Segunda Guerra Mundial e suas repercussões no mundo computacional não parou por aí. Os computadores foram utilizados massivamente para o cálculo da logística balística e de artilharia. ENIAC, o primeiro computador digital eletrônico de grande escala, foi uma máquina para computar trajetórias táticas que fosse mais rápido do que as “firing table”, tabelas que forneciam os elementos de trajetórias padrão para uma determinada arma e tipo de munição, cuja formação foi fortemente impactada pelas mulheres, em especial Jean Bartik. As mulheres, protagonistas dos cálculos das firing tables e Bartik, uma das mentes pensantes atrás do ENIAC foram chutadas do prestígio e reconhecimento da área computacional mais tarde pela misoginia rampante.

 

 

 A partir dos anos de 1970, outra grande revolução no mundo computacional surge: a capacidade de processar textos, acarretando o início das bases de dados, primeiramente como bases catalográficas, mas com a continuação do desenvolvimento tecnológico, começam a transição de publicações de grandes grupos editoriais migrarem para o digital também, inicialmente em apenas dois bancos de dados que englobam dez bases. O avanço foi tamanho que já em 1990 já se tinha mais de três mil bases de dados em quarenta bancos, e hoje já é inimaginável a quantia na era da globalização da informação.

 

 

Quando falamos de bases de dados, é interessante comentar sobre a Web of Science. Em 1955, Dr. Eugene Garfield revoluciona o meio da pesquisa com seu conceito de índice de citação. Começa, então, por Science Citation Index (SCI) e funcionava como um index de citações, listava-se as publicações que foram citadas e identifica as fontes das citações, desta forma, uma pessoa realizando uma pesquisa bibliográfica podia encontrar dezenas de artigos adicionais do assunto com apenas uma publicação.  Originalmente, foi produzido pelo Institute for Scientific Information (ISI) mas nos dias atuais é mantido pela Clarivate Analytics. No decorrer dos anos, o ISI aumentou o escopo temático das suas bases de dados, contemplando a Ciências Sociais com o lançamento da Social Science Citation Index (SSCI), e dentro das áreas de artes e humanidades com o Arts and Humanities Citation Index (AHCI). Entretanto, muito além do avanço no lócus temático o desenvolvimento tecnológico fez com que novas ferramentos de pesquisa resultou na criação de uma interface com consulta única para os índices, chamando-a agora de Web of Science. Atualmente, portanto, a WoS é uma ferramenta que dispõe de mecanismos de pesquisa para acesso a bases de dados bibliográficas de contagem de citações. 

 

Uma das ferramentas disponibilizadas pelo WoS É A InCites Journals Citation Reports (JCR) que divulga o mecanismo Fator de Impacto (FI), um método bibliométrico que avalia as revistas científicas a partir das citações que ela recebe. O JCR exibe o FI das revistas indexadas no WoS, cujo número gira em torno de mais de onze mil revistas. O FI é atualizado anualmente, e contém os dados das publicações anteriores.

 

Imagem 1: Interface de ranking das revistas no JCR.

 

Outro publicador de FI relevante é o SCImago Journal Rank, que está integrado a SCOPUS e suas mais de dezesseis mil revistas.

 

 

Imagem 2: Interface do ranking de revistas da SJR

 

Apesar de ser o fator mais utilizado ao redor do mundo para avaliar e contabilizar citações de revistas científicas, o mecanismo não está isento de falhas. Em países com o cenário científico com desenvolvimento tardio, os periódicos possuem menos prestígio internacional devido sua baixa visibilidade, ou então as revistas com maiores FI avaliados são as que publicam artigos revisados, ou seja, artigos que recebem mais citações. Algumas instituições adotaram o método de FI para avaliar pesquisadores também, não levanto em conta a falsa simetria que isto acarreta (como se pesquisadores publicasse tanto quanto revistas) e incentivando ainda mais o produtivismo acadêmico.

 

 

 

 

“Pode-se citar, por exemplo, a pouca disponibilidade de acesso ao periódico em grandes centros científicos; a baixa prioridade na sua assinatura pelas bibliotecas, e fenômenos culturais do tipo: a preferência dos pesquisadores em publicar os seus melhores trabalhos nos periódicos estrangeiros com alto Fi e, especialmente, no caso do Brasil, o mau hábito de muitos dos pesquisadores brasileiros não citarem os seus colegas brasileiros.” (Pinto e Andrade, 1999, p. 450) 

 

É, portanto, interessante, pensar sobre como algumas ferramentas e mecanismos que ampliam nossa capacidade reflexiva criados pelos humanos possui as mesmas nuances cinzas presente em nós, e como suas invenções, repercussões e referência estão permeadas pelos mesmo sistemas opressores que circulam as sociedades humanas.

 

 

REFERÊNCIAS

 

AXT, B. Alan Turing, ateu e homossexual, pai da ciência da computação. Disponível em:<https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-alan-turing-matematico-considerado-pai-computacao.phtml>. Acesso em 11 de mar. 2020.

KISHI, K. Por que o Fator de Impacto é criticado? Disponível em:<https://galoa.com.br/blog/por-que-o-fator-de-impacto-e-criticado>. Acesso em 11 de mar. 2020.

PINTO, A. C.; ANDRADE, J. B. de. Fator de Impacto de Revistas Científicas: Qual o Significado deste Parâmetro? Quím. Nova. São Paulo ,  v. 22, n. 3, p. 448-453, jun. 1999 https://dx.doi.org/10.1590/S0100-40421999000300026

 

 

 


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