Postagem realizada em: 12/04/2015 às 13:51:00 - Última atualização em: 30/11/-0001 às 00:00:00
Autor: Otavio Henrique Teruya Vidal
O filme Her, de Spike Jonze, retrata a relação de Theodore Twombly e a autonomeada Samantha, um sistema operacional com inteligência artificial. O OS é totalmente personalizável, a medida que ele/ela também aprende com as ações do protagonista. O vídeo "The Machine is Us/ing Us" de Michael Wesch já afirmava que a máquina usava nossos padrões de comportamento na Web (cliques, criação de links, tagueamentos) para aprimorar suas funções, criando o trocadilho que "the machine is using us/the machine is us". A ambiguidade da frase nos permite pensar, além do sentido de que o que fazemos é que ensina a máquina, no quão mecanizadas estão nossas relações ou o quão humanas se mostram as máquinas. O protagonista de Her, um mundo futuro em que as coisas são controladas por equipamentos em rede (emulando um futuro de Internet das coisas), em que se anda com um fone e um dispositivo touch durante boa parte do dia, e relações são instantâneas, impessoais, artificiais ou efêmeras, num tempo líquido (conceito de Zygmunt Bauman), acaba criando uma intimidade maior com seu computador que com outras pessoas, chegando até a se apaixonar por Ela. Entretanto, o computador foi feito para corresponder os sentimentos de seu owner, ser sensível a alterações de voz para captar emoções, decifrar a personalidade a partir de tudo que se faz on screen, criando o questionamento se o amor é real ou programado. Afinal, como o próprio título em inglês demonstra, o computador é um objeto (her), não o sujeito da ação (she). Em uma análise do filme, Pablo Villaça (site Cinema em Cena) fala que "os avatares que vemos nas redes sociais se tornam eventualmente tão autênticos quanto os indivíduos que representam – e, em maior ou menor grau, podemos dizer que amamos não aquelas pessoas com as quais nos envolvemos, mas sim a ideia que construímos delas.". Esse conceito de relacionamentos virtuais também se encontra presente nas reflexões de Sherry Turkle, citada pela professora na aula do dia 6 de Abril. Ela discute como o computador, parte de nossa vida psicológica e social, mudou o jeito que nos vemos e percebemos, como as fronteiras entre computador e humanos estão se tornando mais tênues. Afirma que há um risco de relacionamentos interpessoais a partir do momento em que robôs conseguem enganar humanos, fingindo que se importam, fingindo emoções significativas, quando na verdade, não, eles apenas replicam, se adaptam a partir de um banco de dados. Com a ideia de conectados o tempo todo, aparentamos estar rodeados de pessoas, quando na verdade a solidão nos afeta, aparentamos estar presentes quando na verdade estamos distraídos com nossos dispositivos, perdemos a empatia a partir da perda das interações cara a cara, da proximidade física, precisamos do feedback de nossa rede social para realmente construirmos quem somos. Além disso, as noções de privacidade, geralmente sacrificadas pela segurança, propõe outra problemática. Ainda neste assunto de um paradigma colaborativo em lugar de independência, estado de vigilância, é que se encontra a questão do grande banco de dados (Big Data) que será preciso para se criar um cotidiano todo em rede – parecido com o de Her. Em mãos erradas, toda essa informação pode ser manipulada, de forma a criar uma sociedade altamente controlada, onde interconectividade se torna alienação (afirmação de Sherry Turkle), onde as informações altamente personalizadas não nos acrescentam nada, não nos fazem debater (como Luli Radfahrer, professor de comunicação digital da ECA, diz em entrevista à rádio CBN, onde um feed de notícias do facebook só vem com ideias que retificam as ideias que já se tem). Luli, entretanto, defende que uma datacracia pode ser benéfica a cidadania a partir de um aprimoramento de aplicativos que já existem hoje em dia, baseados em plataformas colaborativas, que, por exemplo, instruem para uma rota de trânsito melhor, a hora que o ônibus chega, etc. Tal aprimoramento seria fazê-los automaticamente captar as informações de todos os dispositivos, não só daqueles que se voluntariam a dá-las. Não seria uma chegada ao estado de vigilância, visto que ele já existe. De acordo com Luli, "nossos dados já são lidos, os únicos que não ganham nada com isso somos nós mesmos". Seria apenas o uso de dados se transformando em informação em prol de uma melhor convivência social, a medição de comportamentos humanos (como Samantha faz com Theodore) para a criação de políticas públicas mais adequadas, distribuição melhor de recursos. Para evitar má intenção, ele defende a criação de uma Instituição para Dados, que crie um Código de Defesa da Privacidade e limite os abusos da publicidade, das redes sociais. Outro uso interessante de dados é a Criatura de Luz, na Avenida Rebouças, um projeto de arquitetura híbrida (instâncias analógicas e virtuais). O prédio reage a estímulos como poluição, barulho e interações com pessoas, modificando sua iluminação e cor. Afinal, um mundo conectado e colaborativo deve servir para melhorar a sociedade, não apenas alguns determinados grupos, com interesses políticos e econômicos específicos. Theodore, ao lembrar da ex-esposa, reconhece que ambos se tornaram quem são graças à troca de experiências e à convivência. Links: Trailer Her: https://www.youtube.com/watch?v=a7psv01LXEM Criatura de Luz: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/12/1563612-fachada-interativa-de-hotel-em-sp-transforma-ruidos-e-poluicao-em-luz.shtml The innovation of loneliness: https://vimeo.com/70534716