Boole... ou melhor, bule...


Hoje é dia 23 de Março de 2007  (17:14)

Bem, li com atenção os outros blogs e cheguei à conclusão de que eles estão muito bons e eu não poderia escrever no meu qualquer coisa que acrescentasse algo de útil ou interessante, em especial por tratar-se de assuntos que, honestamente, eu não acho interessantes. Mas eu fiz um esforço, pesquisei, topei com um monte de números, formulas, e esse tal George Boole, que sem nem imaginar, fez os catálogos de bibliotecas ficarem bem mais eficientes. Ta, mas como, só para variar, eu não estava com vontade de fazer um texto serio, resolvi fazer outra coisa e escrevi o texto abaixo. As recomendações de leitura são as seguintes:

a. ) Preciso dizer que é 100% ficcional? Não, né?

b. ) Se você tem outra coisa mais importante para fazer, como seu relatório de estagio, ou assistir o Chaves em desenho no SBT ou ir comer um pastel ou uma tapioca, então NÃO PERCA TEMPO lendo este blog. Leia outros. O da Michele está realmente muito bom, e o do Roger também (espirituoso, como sempre). O do Fernando também está bom, então, leiam os blogs deles, ta? Mas se quiser ler o meu, vá em frente. Não devolvemos o seu dinheiro no final. 

 Se Álgebra Booleana fosse um Romance, poderia ter sido assim...

George resolveu sair. Não precisava olhar no relógio centenário pendurado na parede para saber que já passava da uma hora da madrugada, mas sentia que se continuasse ali acabaria tendo um ataque de ansiedade ou, na pior da hipóteses, acabaria sufocado com o cheiro dos livros da biblioteca – e eram muitos, espalhados pelo chão, cobrindo a mesa de estudo, empilhados as estantes... desde bem cedo debruçava-se sobre eles no estudo alucinado da única coisa que lhe interessava no momento: a Álgebra, e passariam-se quase vinte horas de álgebra até que se desse conta de estar envolto na profunda escuridão, quebrada apenas pela chama amarela da luminária que em algum momento do êxtase algébrico ligara de modo mecânico, apenas pelo instinto de continuar enxergando os números e as formulas à sua frente; e totalmente alheio aos avisos do estomago e à chuva que, de trovoada no fim da tarde tornara-se uma garoa cortante e silenciosa, ele ficou ali até quase duas horas da madrugada, quando finalmente resolveu caminhar a fim de pôr em ordem seus pensamentos;

 

O leitor saberá que George viveu no século XIX, portanto não havia ainda nenhum Fran´s Café aberto 24hs para servi-lo naquela noite fria. Sequer havia um Fran´s, mas mesmo assim ele conseguiu encontrar um lugarzinho decadente demais, mas capitalista o suficiente para manter seus funcionários a noite inteira trabalhando para alguns intelectuais insones, bêbados passivos e transeuntes distraídos, que como George, alegravam-se ao ver a  porta aberta e a luz acesa naquele pequeno estabelecimento; afinal de contas, o lugar ao menos tinha uma lareira.

 

No balcão de madeira, uma única moça, com jeito de que já estava ali há muito tempo, controlava-se para não despencar de sono sobre o balcão, como um freguês, que dormia próximo à parede, ao lado de um copo de bebida consumida pela metade.

 

George sentou-se diante da garota e, como era de habito fazer nos restaurantes que freqüentava, perguntou pelo cardápio;

 

— Cardápio? – repetiu ela, meio que acordando de repente, piscando os olhos como uma borboleta que bate as asas veloz; 

 

Infelizmente, um cardápio era muito para um local como aquele, mas então mais acordada, a garçonete começou a enumerar na ponta dos dedos as bebidas que havia. Já estava passando para a segunda mão quando George a interrompeu.

 

— Quero uma bebida não alcoólica — disse ele — mas NÃO café.

 

O “não” veio enfático. “Todas as bebidas não alcoólicas, com exceção de café?” indagou ela com seus pensamentos. Certamente sobrava... coisa alguma. “Isso é um ultraje!” pensou George. Se não estivesse tão cansado, teria se levantado imediatamente daquele espelunca e voltado para casa, a fim de debruçar-se sobre os livros de matemática novamente. Contudo, ele não fez isso. Olhou para a moça do balcão com incredulidade e indagou:

 

— Só tem café?

— Sim — respondeu ela, indefesa.

 

George raciocinou. Conhecia aquele tipo de estabelecimento miserável e explorador: era do tipo que dividia lugar com a casa dos proprietários, alguns avarentos que naquele momento provavelmente dormiam com boas almofadas no primeiro andar do prédio. E devia haver uma dispensa somente deles em algum lugar, e nessa dispensa haveria necessariamente mais do que café. Mas seus pensamentos tiveram que parar por aí. A moça tinha a honestidade estampada na face, e mais do que honestidade, a servidão e obediência. Portanto, não adiantava tentar corrompe-la, ao menos não em seu próprio favor, e ele sabia disso.

 

— Não tem leite? — perguntou então, entredentes, já sabendo de antemão a resposta. Tinha consciência de não estar em um Vienna... não havia leite ou café com creme e morangos em volta, e flores enfeitando uma bandeja de prata por sobre o qual repousava um menu de vinte paginas,  três delas dedicadas a bebidas sem álcool. A garota ficou ainda mais indefesa, nem respondeu, nem sabia o que dizer. Desejou que aquele freguês inoportuno fosse embora, mas ao contrario, ele retirou do bolso uma caneta preta, linda e cara, e puxou do canto do balcão um pedaço amassado de papel, que pôs-se a desamassar lentamente.

 

— Bebidas — disse ele, escrevendo no papel, sob os olhares curiosos dela, que não sabia ler — todas, menos as com álcool... e escreveu: BEBIDAS MAS NÃO BEBIDAS ALCOOLICAS; — mas que não seja café, entende? — e olhou para ela, enquanto rascunhava:

 

BEBIDAS SEM ALCOOL MAS NÃO CAFÉ

 

— Me diga um bebida não alcoólica que não seja café — pediu ele, balançando a ponta da caneta dois milímetros acima do papel.

 

— Chá? — balbuciou a garota. E ele escreveu no papel.

— Mais uma.

— Leite?

— Mais alguma?

— Água?

— Mais alguma?

Ela pensou um pouco, confusa. Seu estoque de conhecimentos sobre bebidas não alcoólicas havia se esgotado. Por fim, soltou um “não” que era quase um suspiro.

 

— Muito bem — concordou George — um dia eu espero que você tenha a oportunidade de ir, ainda que seja para trabalhar, em um lugar assim, como o Vienna, ou o Montana... já ouviu falar desses lugares? Não? Bem, se estivéssemos em um desses lugares, poderíamos ficar sentados em uma mesinha coberta com uma toalha de renda, e uma garçonete viria com um menu de vinte paginas onde poderíamos optar por um Chá de flores silvestres OU um Frapê. E se não houvesse frapê, o que é impossível, beberíamos um Ponche de frutas vermelhas... de qualquer modo teríamos mais que uma opção, e receberíamos alguma coisa em uma bandeja prateada dentro de poucos instantes... — e enquanto dizia isso, ele ia rabiscando bem vagamente os cantos do papel...

 

CHÁ OU FRAPÊ OU PONCHE

 

A garota, agora totalmente esquecida do sono ou do cansaço, experimentava cada uma daquelas deliciosas bebidas que nunca havia provado, mas que já desciam suave por sua garganta, e como George alem de falar ainda ficava rabiscando com aquela caneta caríssima o papel velho e amarrotado, ela de vez em quando também olhava para ele, admirando aquilo que pareciam desenhos no papel, tão incompreensíveis e bonitos eram. Então ele continuou:

 

— Mas mesmo que quiséssemos apenas um café, bem, não seria um café ralo, mas um café com creme... ou um capuccino. Você já bebeu um capuccino? — perguntou, e a moça, tomada de surpresa por ser de repente assim abordada e puxada para os devaneios gastronômicos daquele cliente, fez que não com a cabeça de modo triste e evasivo.

 

— É uma bebida sem álcool deliciosa. Eles colocam leite e café, chantily, chocolate e, me parece, pelo que posso lembrar, um pouco de canela, coisas assim que se consegue na cozinha de qualquer pessoa com um tantinho de dinheiro... — e escrevia:

 

LEITE E CAFÉ E CHANTILY E CHOCOLATE E CANELA

 

Com exceção dos dois primeiros, a garota nunca havia provado esses ingredientes, mas ficou fascinada pelo simples pronunciar das palavras, uma seguida da outra, e imaginava-as se misturando em uma xícara de porcelana, formando um capuccino. Esse seria um gosto que ela jamais sentiria, mas que por bastante tempo não conseguiria deixar de lembrar: a coisa mais deliciosa que nunca provara na vida.

                       

E você leitor, que achou que eles iriam se apaixonar, e casar, e viver felizes para sempre, pois George a arrancaria daquele balcão e lhe livraria da vida de servidão do século XIX, infelizmente devo dizer que a coisa foi bem diferente. Primeiro, ele continuou escrevendo aquelas coisas com E e MAS NÃO e OU no papel, quando a álgebra (lembram-se de que por que ele estava ali?) lhe tomou novamente pelas mãos. Não que ela não estivesse em seu pensamento o tempo todo, mas francamente, naquele momento, na espelunca que só tinha café ralo como bebida não alcoólica, ele teve uma idéia brilhante! Correu de volta para casa (não se enganem, ele não se despediu da garota nem voltou ali novamente) e jogou-se no meio dos livros para escrever uma coisa que no seu pensamento era tão obvio, era lógico!

 

— Ah, sim — dizia ele, para si mesmo — George Boole, você é um gênio!

 

Quanto à garota... bem, como dissemos, ela jamais provaria um capuccino como o do Vienna ou o do Montana, mas se alguém prestasse um pouco de atenção, perceberia que de vez em quando sumiam da dispensa algumas coisas em quantidades quase insignificantes... a não ser, é claro, naquele dia em que o roubo tornou-se obvio: foi quando a senhora da casa conseguiu comprar uma barra grande de chocolate e na manhã seguinte, metade dele havia sumido. Ela fez um escândalo, e chamou a garota pois tinha certeza de que, pela forma como estava, só podia ter sido um rato, ou melhor, uma ratazana. Mandou-lhe espalhar ratoeiras por todo o estabelecimento, e jamais desconfiou da moça por que ela tinha a honestidade, medo e obediência estampada na face... só não percebeu que naquele dia havia um estranho sorriso também, e faltava um pouco de café, leite e canela na dispensa. 


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